O País real, a bolha e o “vem aí o socialismo”. Crónica de Margarida Davim
Um chapéu de chuva transparente, com uma vareta partida. Os prédios desfocados pela chuva, através do plástico. A imagem entrou-me nas mensagens e fiquei a olhar para ela. “O teu velhinho chapéu de chuva hoje voltou a dar jeito, mas a Ingrid deu conta dele. Reciclei-o no ecoponto amarelo, proferindo algumas palavras.” Já não me lembrava daquele chapéu de chuva nem de o ter deixado com alguém. Fiquei a olhar para a mensagem, tentando recordar-me daquele objeto e das circunstâncias em que o deixei para trás, esquecendo-o para sempre até uma tempestade o quebrar e eu ser, assim, notificada do fim de alguma coisa de que já não me lembrava. A velocidade das mensagens, das informações, das solicitações, arrasta-nos como ventos ciclónicos e erode a memória, pensei. Andamos soterrados em notificações, mensagens que treslemos, emails que apagamos com alívio e culpa, incapazes de responder a tudo, bloqueados pela ideia de que devíamos ir aonde não estamos, com a sensação constante de que estamos a perder alguma coisa.
Enquanto o vento e a chuva arrastavam carros, tombavam gruas, arrancavam as raízes das árvores, eu estava fechada num estúdio de televisão, a comentar o debate da segunda volta das presidenciais. Lá dentro, apenas uma chuva de picardias, palavras levadas pelo vento, aquecidas pelo sol intenso dos holofotes. Quando saí, encontrei à porta um bombeiro. Não podia ser bom sinal, brinquei. E não era, explicou-me. Mas eu cheguei a casa sem grandes sobressaltos e no scroll........
