Isto não é ficção: as empresas gostam de faquires
Anunciaram-lhe que tinha de passar o sábado numa formação da empresa. Não ia haver pagamento de horas extraordinárias. Só uma folga, num dia a aprovar pela diretora. Chegou lá depois de deixar a filha com os avós, que o pai nunca é solução. Teve sorte. Houve quem, sem avós por perto nem pai que valesse, tivesse de arranjar soluções mais criativas, recorrendo à bondade de quem pudesse ficar com os miúdos, que 1200 euros brutos não dão para andar a gastar dinheiro em baby-sitters. Lá chegada, encontrou o formador. Na verdade, um coach. Alguém pago para os pôr a fazer “provas de confiança”. Andaram a partir espadas de plástico com o pescoço, para perceberem o poder da mente e os bloqueios das “crenças limitativas”. Já ouvi falar de “formações” destas em que os trabalhadores passam um fim de semana a viver como se estivessem na tropa ou até a caminhar sobre vidro partido ou a atravessar o fogo. Pelos vistos, ser faquir é uma competência essencial para sobreviver nas empresas.
O dia estava quente, um daqueles primeiros dias bons de primavera, depois de um inverno cinzento de chuvas. Mas eles lá ficaram fechados a convencerem-se do poder da própria mente e de que são todos uma equipa e a empresa é uma família. Deve ser. Por isso, a família a sério e os amigos que se escolhem ficam à espera da tal folga que a diretora há de aprovar, num dia de semana, quando nem familiares nem amizades estiverem disponíveis. E até há de dar jeito, que há roupa para passar a ferro ou uma consulta pendurada ou uma burocracia que nunca há tempo para resolver. O lazer é luxo. Ir ao cinema está caro, estar com os amigos numa esplanada custa dinheiro, até uma ida à praia leva o couro e o cabelo. Assim, pelo menos........
