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Que até nos Cus de Judas haja Memória de Elefante: perdemos o melhor de todos

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05.03.2026

Colamos letras, seguimos palavras, encontramos e encontramo-nos, vamos contando e marcando páginas, sentados, confortáveis, com música sem letra a girar e copo aterrado na mesa de apoio. É assim o processo, é assim a bula que descobrimos sempre que abrimos a caixa do remédio pelo lado errado, logo ao começar. Não é assim com o Escritor. Lê-lo é mergulhar num rio de correnteza desnorteada, violência que nos empurra o nariz até ao lodo a forrar o fundo, quando a gravidade flutuante do nosso corpo nos engana com a promessa de superfície à próxima braçada. São águas revoltas que, por maior a procura de resgate num galho ou palavra de braço esticado na margem, nos envolvem sufocantes, intrometidas pela boca, narinas, ouvidos, num susto de querer fechar o livro para poder voltar a respirar. É no momento de entrega, morte de qualquer espernear, com bandeira sem cor rendida, que a derrota nos ensina que o segredo está em deixarmo-nos levar pela teimosia vitoriosa da corrente.

A estória apresenta-se ficcional, mas a loucura é autoral, com cédula de identificação militar. Sorri sofrida entre silêncios e pausas que contrariam a velocidade das palavras no papel, revela-se nas pequenas maldades que desculpamos a quem nos mostra ter conhecido o inferno. Médico e paciente juntos a conduzir mais um corpo para autopsiar. Memórias de esterno aberto, com as entranhas que nos espiam e julgam como vizinhas à janela. O cheiro a carne e guerra misturado com o odor prazeroso que furtamos em silêncio no correr das páginas de mais um livro. Jogo de cartas viciado, baralhado por quem condenou uma geração ao trauma de ter de lutar por um império ferido de morte. Há justiça na vingança de ter vestido exploradores de proxenetas, navegadores que jogam à batota e realeza de postiços apanhada numa operação stop. Fez das naus de “Lixboa” novos Lusíadas, onde o elogio deu lugar à luz cruel de hospital que nos revela as vergonhas escondidas na sombra, como o órgão flácido pendurado do tarado que assusta meninas na paragem de autocarro, em vez de correr com Madonnas escondidas em palacetes de rendas manuelinas.

Não lhe deram o Nobel. Era seu, não por direito, mas pela obrigação que devemos ao melhor entre os melhores. Todos os anos procuro, todos os anos os leio e em nenhum encontro a mestria do Escritor. Nem de raspão. Prefere-se um arco direito, escrita de mão firme, sem arte e letra desalinhada, narrativa cronológica encaixotada e razoavelmente arrumada, mesmo em livros de uma frase só. A cabeça do Escritor era quarto de gavetas e armários revirados, sem roupa dobrada na fotografia revelada a cada página. Quis contar tudo o que via e sonhava, mesmo em dias de pesadelo, avesso a truques e provas de obediência gramatical. É honestidade sem edição, de pensamento na ponta da caneta, onde a poesia e a metáfora se encontram até na pontuação. Não era narrador de invenções, apenas fazia delas desculpa para nos esfregar a cara na aspereza da sua verdade. Ensinou-nos até sobre os pássaros, mas escrita de voo tão alto num corpo tão pesado não tem qualquer explicação.

António Lobo Antunes partiu hoje. Perdemos o melhor de todos. Que até nos Cus de Judas haja Memória de Elefante para celebrar a sua obra por toda a eternidade.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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