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Camões, esse argumentista que Portugal nunca conseguiu pagar como devia

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10.06.2026

O Dia de Portugal é uma data muito curiosa. A maioria dos países celebra o seu dia nacional comemorando revoluções, independências, vitórias militares, quedas de bastilhas, derrotas de tiranos, coroações, bandeiras içadas, tratados assinados, generais a cavalo ou presidentes com a mão no peito e lágrimas no canto do olho. Nós celebramos a morte de um poeta. Que maravilha. O que, visto bem, diz quase tudo sobre nós. Portugal não escolheu para se representar um rei vencedor, um navegador triunfante ou um revolucionário da independência. Escolheu Camões: um homem que andou pelo mundo, perdeu um olho, perdeu amores, perdeu dinheiro, perdeu quase tudo, salvou o manuscrito de Os Lusíadas de um naufrágio e morreu pobre, enquanto o País também se preparava para morrer politicamente em 1580.

É difícil imaginar metáfora mais portuguesa. Um homem afunda-se, mas segura o livro. A pátria vai ao fundo, mas a obra fica para sempre imortalizada. O império desfaz-se, mas a rima aguenta. Aguenta, aguenta, como dizia o outro. Camões é, no fundo, o nosso primeiro grande argumentista nacional: deu-nos épica, melodrama, tragédia, erotismo, aventura marítima, monstros, deuses, ninfas, discursos inflamados, velhos pessimistas à beira-mar e aquela certeza amarga de que a seguir à glória, em Portugal, chega sempre depois uma conta para pagar.

Por isso, quando hoje se celebra o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, convém não esquecer que esta data também teve a sua própria montagem ideológica. Foi Camões, foi Portugal, foi “Raça” no Estado Novo, deixou de o ser depois do 25 de Abril e passou a incluir as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Também aqui a vida imitou Camões: o poeta que viveu fora, escreveu sobre partidas e regressos, e acabou transformado no mestre de uma língua que continua a ser a nossa verdadeira embaixada. Portugal cabe talvez cada vez menos no mapa e cada vez mais na língua. E, nisso, Camões continua a ganhar toda e qualquer eleição sem precisar de ir a debates televisivos nem de fazer campanha eleitoral.

O Camões de espada, peito e propaganda

O cinema português, naturalmente, não resistiu ao mito. Em 1946, José Leitão de Barros realizou Camões, a grande superprodução histórica do Estado Novo, com António Vilar no papel do poeta. Era, para a época, cinema de Estado, cinema de prestígio, cinema de peito feito, bigode moral e bandeira ao vento. Salazar declarou o filme de “interesse nacional”, o que, em linguagem menos administrativa, queria dizer: isto não é apenas um filme, é uma operação de engenharia patriótica.

A produção foi uma das mais caras e ambiciosas do cinema português até então. Tinha o selo da política cultural de António Ferro, a mão produtora........

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