O futuro mora na porta ao lado. Opinião de José Paulo Santos
Podemos ter uma casa e não ter a quem bater à porta. Podemos conhecer as desgraças do mundo e ignorar o sofrimento do vizinho. Enquanto fazemos contas ao futuro, há uma pobreza que cresce sem entrar nas estatísticas: a de já não contarmos uns com os outros.
Há uma pergunta que devia acompanhar os anúncios das casas: se eu desaparecer durante três dias, alguém neste prédio dará pela minha falta? Entre os metros quadrados, a eficiência energética e a proximidade do metro, seria uma informação preciosa. Uma casa pode ter uma vista magnífica e ninguém que olhe por nós.
Perguntamos o que desejamos do futuro e respondemos com aquilo que nos falta: habitação, melhores salários, segurança, uma escola onde os filhos possam aprender sem sobressaltos. Queremos deixar de fazer contas no corredor do supermercado, de olhar para o preço dos combustíveis como quem consulta uma ameaça, de trabalhar um mês inteiro para descobrir que a vida ficou novamente por pagar. São desejos legítimos, urgentes. Porém, há uma falta que não aparece no recibo do vencimento: a de sentirmos que a nossa existência importa a alguém para lá da porta de casa.
Pascal Chabot oferece-nos uma imagem perturbadora para pensar esta condição. Em Nos Vies Encapsulées (PUF), interroga a vida nas “cápsulas”: espaços fechados, protegidos e conectados, onde a existência decorre numa relativa indiferença ao exterior. A proteção e a ligação ao mundo podem, afinal, coexistir com um profundo afastamento dele.
Basta seguir um dia possível. Saímos de casa, entramos no automóvel, chegamos ao trabalho, regressamos ao automóvel e........
