Filha, muda o mundo, mas evita as cacetadas
A minha filha escreveu-me depois de ler o meu artigo na VISÃO sobre as manifestações e a força policial. Contou-me que tem estado quase todos os dias no protesto, embora não fique a acampar, e que as minhas palavras lhe deram forças para continuar a lutar por um direito essencial a todos. Um pai recebe uma mensagem destas e tem razões para se comover: a filha lê o que ele escreve, reconhece-se nas suas palavras e leva-as consigo para a rua. É uma bela recompensa para quem escreve. Até perceber que a rua tem polícia de intervenção.
Respondi-lhe: “Olá, filha. Já imaginava que lá estarias, mas evita as bastonadas.”
Eis o meu contributo para a história do pensamento político: defender a transformação da sociedade, desde que a minha filha se mantenha fora do alcance do bastão. Anos de educação para a liberdade, para a justiça e para a responsabilidade cívica desembocaram naquela recomendação, cuja utilidade prática merece estudo. Evitar uma bastonada não depende apenas da pessoa a quem ela se destina. Ainda assim, escrevi aquilo com a convicção aflita com que os pais mandam levar um casaco, como se fosse possível proteger os filhos de tudo através de uma última instrução à saída.
Ela respondeu: “Sim, por sorte, não tenho apanhado.”
Por sorte. Fiquei preso àquelas duas palavras. Gostaria de poder ler “por estar protegida”, “por me manifestar pacificamente”, “por viver numa democracia que sabe ouvir”. A minha filha escreveu “por sorte”, e um pai percebe que há ocasiões em que todo o vocabulário das instituições parece oferecer menos garantias do que um amuleto.
Ainda insisti: “Resguarda-te, pf.”
Quando um pai começa a abreviar “por favor”, não significa que lhe falte sentimento.........
