João Abel Manta: Um artista e cidadão de corpo inteiro
1. Figura a vários títulos ímpar – desde logo como artista, e como artista que num momento maior da nossa História interveio nela de forma marcante, militante do 25 de Abril sem nunca abdicar da sua criadora independência crítica – João Abel Manta morreu ao fim da tarde do passado dia 15. Aos 98 anos, na sua bela casa, por ele próprio desenhada, no Bairro Alto em Lisboa, onde tinha também o seu atelier, em que durante décadas trabalhou sem cessar na sua arte. Até a sua saúde não permitir mais fazê-lo, estando acamado há perto de uma década. Sem que ninguém que tenha acompanhado ao vivo a Revolução de 1974, ou saiba o que ela foi e representou para a nossa pátria, o tenha esquecido ou possa esquecer.
Porque João Abel Manta (JAM) foi o grande artista/cartunista do 25 de Abril, o grande autor de desenhos, retratos, caricaturas, cartazes, que refletiram, interrogaram, comentaram, criticaram, incentivaram, glorificaram a revolução libertadora ao longo de todo o seu percurso, até à institucionalização da democracia. Sempre tendo a liberdade como valor primeiro, sempre com uma visão de progresso, solidariedade, justiça social – sem quaisquer dogmatismos ideológicos ou óculos partidários.
João Abel foi também, além do resto, o artista que de forma em simultâneo mais divertida e demolidora, com mais humor e perspicácia, nos deu um retrato de corpo inteiro, uma espécie de iconografia, do “fascismo à portuguesa”. Nas suas diversas vertentes, das irrisórios às folclóricas e às sinistras, e através de seus múltiplos personagens, dos piedosos aos pitorescos, dos marialvas aos pides. Refiro-me, claro, às suas Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar.
2. Arquiteto, atividade profissional e obra assinalável nesse e noutros domínios artísticos, designadamente como autor de grandes painéis cerâmicos, do da Associação Académica de Coimbra ao (imenso, da Av. Calouste Gulbenkian em Lisboa), o seu gosto pela arte, em especial pela pintura, vem de miúdo. E foi aprendendo com o pai, a ver pintar o pai, que nunca lhe ensinou nada e não queria que ele fosse pintor – ao contrário da mãe, que queria e lhe ensinou… O pai, Abel Manta (1888-1982) pintor famoso e professor, a mãe, Clementina Carneiro de Moura, também pintora e professora. Que sempre que podiam, para ver arte, viajavam pela Europa, sobretudo para Paris, onde o o “velho Manta” fez a sua formação, entre 1919 e 1925.
Ora essas viagens foram importantes na sua vida, João Abel contou-me algumas histórias dessa época. Por exemplo, uma vez, tinha oito anos, ficaram, em Paris, num hotel no cruzamento perto do café La Rottonde, onde “ainda me lembrava de ver o Picasso”. “Havia ali perto uma Academia, um dos professores era o Léger, e sessões de desenhos de modelos nus. Os meus pais, que a frequentavam, compraram-me um caderno e lápis e levavam-me sempre com eles. Está a ver o que era um puto de oito anos a desenhar mulheres nuas, no meio daqueles artistas todos. Bom, algumas daquelas mulheres lindíssimas, começaram a reparar em mim,........
