Prémio Laranja Amarga para o Governo que não previne, não protege, nem dá esperança
Estamos a passar nas últimas semanas por uma sequência de fenómenos naturais extremos, que começaram por provocar uma devastação de grande dimensão na região Centro, sobretudo entre Leiria e Coimbra, seguidas de inundações que extravasaram os leitos das bacias do Mondego, do Tejo, do Sado e do Guadiana e seus afluentes.
Os fenómenos extremos têm características muito diversas, como os incêndios rurais, as depressões como o furacão Leslie ou a ciclogénese explosiva Kristin, a pandemia Covid-19, as enxurradas na Madeira ou os sismos nos Açores, mas as alterações climáticas e o aquecimento global, negados pela extrema-direita, tendem a torná-los cada vez mais frequentes e com consequências mais graves.
A resposta a estes fenómenos passa por dar prioridade ao planeamento, à prevenção ativa, à pedagogia dos comportamentos dos cidadãos e à realização regular de exercícios de coordenação e preparação da resposta de todas as entidades envolvidas.
O trauma dos incêndios de 2017 e as recomendações da Comissão Técnica Independente levaram a que fosse dada a prioridade política e financeira ao investimento em prevenção, o que permitiu o desenvolvimento de uma Estratégia de Proteção Civil Preventiva, aprovada em 2017 e revista em 2021, e o desenvolvimento do sistema de Planeamento Civil de Emergência que propiciou seis anos sem mortes civis nos incêndios, a resposta antecipada sem vítimas mortais aos furacões Leslie na região de Coimbra ou ao Lorenzo nos Açores, e a uma notável resiliência coletiva durante a pandemia sobretudo durante as 18 quinzenas de Estado de Emergência.
Luís Montenegro é um pragmático sem cultura de planeamento estratégico que desprezou o investimento na prevenção de riscos, desaparecido do discurso político, e que em momentos de crise aposta tudo na resposta política e nos apoios financeiros que julga serem a garantia da sobrevivência do seu Governo.
O padrão é perigoso e passa pela desvalorização política da centralidade e comando das operações pelo MAI, com as desastradas escolhas das duas ministras que sendo respeitáveis juristas não tinham qualquer capacidade operacional, e pela fragilização da Proteção Civil que perdeu Autoridade e passou a ser vista como um serviço de bombeiros.
O resultado viu-se nos incêndios de 2024 e de 2025, na resposta atabalhoada ao apagão e culminou na reação tardia à calamidade que estamos a viver.
Ana Abrunhosa, pela sua capacidade de prevenção de riscos, antecipação da resposta às cheias do Mondego, coragem a tomar decisões difíceis e capacidade de liderança, tem feito em Coimbra tudo o que o Governo, com exceção da ministra do Ambiente, não foi capaz de fazer na resposta à emergência climática.
Gonçalo Lopes, em Leiria, liderou a resposta imediata à destruição extrema da região desde a primeira hora, quando Luís Montenegro ainda falava em avaliação da situação por Secretários de Estado que iriam ao local mais de 12 horas depois das piores ocorrências. Neste momento, a recuperação dos prejuízos vai ser uma longa e penosa marcha, mas ninguém explica como é possível que mais de 35 mil casas continuem sem eletricidade ao fim de mais de duas semanas e as operadoras de comunicações recusem o roaming nacional entre elas.
Clarisse Campos foi, em Alcácer do Sal, a líder de uma comunidade solidária que, apesar de o centro da cidade parecer a Veneza do Alentejo, foi excluída na declaração inicial das zonas de Estado de Calamidade feita pelo Governo em 30 de janeiro.
Estamos ainda em fase de prevenção de riscos extremos e de avaliação de prejuízos, mas a centralidade de Luís Montenegro, agora que passou a ser MAI e mandou calar os desastrados propagandistas Leitão Amaro e Castro Almeida, torna-o no primeiro responsável político pela ausência de prevenção, pela reação tardia à tragédia e pela insuficiência da resposta à profunda crise para as infraestruturas, as empresas e as famílias.
As medidas de apoio inicialmente aprovadas só se aplicam nos 68 municípios abrangidos pela declaração de Estado de Calamidade, o que exclui, entre outros concelhos, Arruda dos Vinhos que nem votou no domingo passado, Alenquer inundado e largamente intransitável ou Almada que procedeu à evacuação de centenas de pessoas de zonas de risco.
A teimosia de Montenegro em recusar alargar os territórios com direito a apoios tem sido permanente, com uma renitência perante a realidade da calamidade disfarçada agora com o anúncio às televisões de um PRR nacional de conteúdo ainda desconhecido e que nem sequer consta do comunicado do Conselho de Ministros de ontem.
Já sabemos é que os 500 milhões de euros para empréstimos a 5 anos, de apoio à tesouraria das empresas, se esgotaram em 10 dias e tiveram já de ser reforçados, que ainda ninguém recebeu apoios para recuperar casas, que o lay-off aprovado não garante a totalidade dos salários, e que quem tiver uma dívida à segurança social ou se atrasar no pagamento do IMI não terá direito a apoios à recuperação de prejuízos.
As populações confiam nos avisos, conselhos e apoios dos seus autarcas, na Proteção Civil mobilizada a nível regional e local e na preciosa logística das Forças Armadas a partir do momento que foram chamadas ao terreno, tanto quanto já desistiram de esperar pela segurança e tranquilidade que devia ser transmitida por um Governo, à toa.
Pela improvisação e descoordenação na resposta à calamidade, pela preocupação com a propaganda e pela insuficiência e inconsistência dos apoios para a recuperação dos danos, o prémio Laranja muito Amarga de hoje vai para o comando operacional do MAI Luís Montenegro.
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