O peso do silêncio nos cancros ginecológicos
Há silêncios que custam vidas. O tema da conferência que, no início de março, reuniu em Bruxelas decisores europeus, especialistas e organizações, “Breaking the Silence on Gynecological Cancers in Europe”, mais do que um título, equivale a um diagnóstico. Durante demasiado tempo, os cancros ginecológicos foram remetidos para segundo plano e pouco priorizados, com custos enormes para a saúde das mulheres.
Um dos passos mais urgentes é a criação de centros de referência para os cancros ginecológicos, que permitam um diagnóstico atempado e correto, além de um acompanhamento por equipas multidisciplinares especializadas em cada tipo de tumor. Atualmente, consideramos que existe um número elevado de hospitais a fazer cirurgias nestes tipos de cancros, mas sabemos que a qualidade dos resultados e a repercussão na qualidade de vida das pacientes tem muito a ver com a especialização. A “abordagem generalizada”, defendida por muitos especialistas, não será, para nós, o melhor caminho. Em vez deste, entendemos que a aposta deve passar por uma “abordagem específica”, já que estamos a falar de tumores muito diferentes entre si, não só do ponto de vista dos sintomas, mas também em relação à evolução da doença, aos tratamentos necessários, ao impacto na vida das doentes.
Basta pensarmos no cancro do colo do útero e no cancro do ovário, que pouco mais têm em comum do que o facto de serem ambos cancros ginecológicos. Para o primeiro, existe vacina e rastreio de base nacional; para o segundo, ainda não foi possível desenvolver um método fiável de deteção precoce.
Para fomentar um diagnóstico precoce, reduzindo o tempo entre os primeiros sintomas e o diagnóstico, exige-se investimento em literacia, a vários níveis. A começar pelas mulheres, que precisam de ter um papel ativo na sua própria saúde, aprendendo a reconhecer e a interpretar os sinais que o corpo lhes comunica. Mas os médicos de família assumem também um papel insubstituível: mesmo que os cancros ginecológicos não sejam a doença mais frequente nas suas consultas, é fundamental que estejam atentos aos sintomas associados e sejam capazes de fazer um encaminhamento rápido e certeiro.
A isto acresce uma desigualdade territorial que não pode ser ignorada: o rastreio do cancro do colo do útero funciona bem no norte do País, mas vai perdendo expressão à medida que se avança para sul. Esta assimetria tem de ser corrigida com urgência. E tal como a MOG – Movimento Oncológico Ginecológico já sugeriu à atual Ministra da Saúde, é essencial criar Consultas de Saúde da Mulher nas Unidades Locais de Saúde, um instrumento poderoso para aumentar a prevenção e o diagnóstico precoce de múltiplas doenças.
Quando falamos de doenças, há algo incontornável: a forma de as tratar. Aqui, importa garantir que as doentes têm acesso, sem demoras injustificadas, aos medicamentos que podem fazer a diferença. Torna-se igualmente prioritário criar condições para realizar um maior número de ensaios clínicos em Portugal, encontrando formas de viabilizar a realização de ensaios clínicos transfronteiriços, o que seria um passo importante neste contexto.
Mas o tratamento implica mais do que atuar sobre o tumor. Para garantir melhores resultados clínicos e melhor qualidade de vida, é preciso olhar para estas mulheres na sua integridade e não apenas através do ângulo da doença que as afeta. O apoio multidisciplinar tem de contemplar o controlo dos efeitos secundários, a gestão da dor, as alterações profundas que estes cancros provocam, como a menopausa precoce, a saúde mental e o exercício físico. Uma visão fragmentada da doente traduz-se numa forma de a deixar para trás.
A conferência de Bruxelas sinaliza uma mudança na forma como a Europa encara os cancros ginecológicos. Ainda assim, os sinais, por si só, não bastam. Importa transformar palavras em políticas, políticas em recursos e recursos em vidas salvas. Quebrar o silêncio constitui apenas o primeiro passo; o seguinte passa por garantir que nunca mais se volte a instalá-lo.
A conferência de Bruxelas indica que algo está a mudar na forma como a Europa encara os cancros ginecológicos. Mas os sinais não chegam. Importa que as palavras se convertam em políticas, que estas se traduzam em recursos, e os recursos em vidas salvas. Quebrar o silêncio é apenas o primeiro passo; o segundo é garantir que não se volte a instalar.
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