Resistir não é vencer: caso Jones Manoel e a política do pânico no lulismo
Este artigo é o terceiro da série “Brasil, que país é este?”, tendo como objetivo a elaboração de uma radiografia sociopolítica do que entendo serem as grandes questões da formação social brasileira, procurando apresentar elementos para que possamos analisar e acompanhar as eleições presidenciais de outubro de 2026 com uma veia histórica crítica e de longa duração.
Nota prévia. As ideias-força deste artigo fazem parte do ensaio sobre “o que é o lulismo?”, que está a ser finalizado para publicação nesta série “Que país é este?”, conquanto, acabei por ser arrastado pela conjuntura, por uma situação que evidencia de forma exemplar um dos elementos constitutivos do “lulismo tardio”: a política do pânico.
Uma página de Instagram chamada “Seremos Resistência” publicou uma peça acusatória contra o historiador e político brasileiro, Jones Manoel a propósito de uma “colinha” eleitoral na qual não aparecia o nome de presidente Lula da Silva. O episódio poderia parecer apenas mais uma polémica fabricada pelas redes sociais, dessas que nascem com a solenidade de uma crise de Estado e morrem antes do fim do dia. Contudo, revela algo politicamente mais profundo e problemático. Começo com uma curta reflexão sobre o nome da referida página e o imaginário político que ela carrega: seremos resistência.
A partir de uma conceção político-militar, resistir é indispensável quando os adversários estão a avançar, mas resistir não é vencer, apenas defender-se dos ataques dos inimigos. É neste ponto que a resistência deixa de ser um momento da luta e se converte numa identidade permanente de uma estratégia política, desligada de um horizonte de conquista e transformação, tornando-se num fetiche pela derrota política (mesmo que com vitórias eleitorais), visto que não se pretende conquistar iniciativa, construir força ou transformar a sociedade; pretende-se apenas impedir, pela enésima vez, que tudo se torne ainda pior. A autodesignação da página expressa metaforicamente (ou não) a temporalidade histórico-política do lulismo tardio (Paulo Arantes).
O lulismo tardio e a política do pânico
A categoria de lulismo tardio não designa apenas uma etapa cronológica da história política de Lula da Silva e do Partido dos Trabalhadores (PT), mas uma alteração na forma predominante de organizar o consentimento e manter a hegemonia no campo da esquerda e progressista. No seu período ascendente, sustentado pelo crescimento económico, pela expansão do emprego, pela valorização do salário mínimo e pela ampliação das políticas sociais, o progressismo do lulismo apresentava uma promessa positiva, como os pobres poderiam melhorar de vida, os trabalhadores poderiam consumir mais e o capitalismo brasileiro continuaria a lucrar, tudo isto sem rutura com as estruturas fundamentais da ordem. Era o melhorismo, isto é, melhorar a vida do povo trabalhador dentro da ordem, administrando e regulando os conflitos a fim de evitar que desembocassem num confronto aberto entre interesses inconciliáveis – isto é, a velha e viva, apesar de negada ou ocultada, luta de classes.
A base material começou a erodir-se com a desaceleração económica no esteio da crise capitalista e a política de austeridade aplicada em 2015 pelo governo Dilma Rousseff (o próprio PT reconhece essa análise); portanto, a crise política aberta em Junho de 2013 foi depois aprofundada pelo golpe do impeachment, lawfare e prisão de Lula, assim como a tutela militar e a emergência do bolsonarismo enquanto campo político hegemónico na direita brasileira, sinalizam para uma crise e os limites do lulismo não-tardio (forma de regulação do conflito social a partir da cadeira presidencial). Nesse processo de crise, a promessa mudou de sinal. O lulismo progressista já não podia afirmar prioritariamente: “connosco, todos podem melhorar”. Passou a advertir: “sem nós, virá a barbárie”. Noutros termos, o futuro desejável cedeu lugar ao futuro temido. O melhorismo transformou-se em menorismo: já não se trata principalmente de melhorar dentro da ordem do capitalismo periférico e dependente brasileiro, mas de impedir que a sociabilidade se torne ainda pior. Uma pergunta parece incontornável: a tática lulista tem conseguido?
Enfatizo sem meias palavras. A ameaça da extrema-direita e do neofascismo é real, o golpe do impeachment de 2016, a operação político-judicial contra Lula da Silva, assim como foi o governo Bolsonaro, a gestão criminosa da pandemia, a tutela das Forças Armadas e as tentativas golpistas, as ameaças de uma intervenção imperialista dos EUA no país; são questões e riscos que não foram invenções de uma assessoria de comunicação lulista/petista, é algo verdadeiro e realmente temerário. O problema central está no uso político que se faz desses riscos. Explico melhor.
A política do pânico inicia-se quando ameaças autoritárias e fascizantes reais são convertidas numa tecnologia e modo de disciplinamento interno, quer dizer, na gramática predominante do lulismo tardio, o Lula da Silva e o PT são apresentados como as únicas barreiras possíveis contra a catástrofe; particularmente Lula, como a única mediação popular capaz de a impedir. Portanto, qualquer forma de crítica torna-se colaboração “objetiva” com a direita ou o bolsonarismo, uma posição de independência e autonomia política que trisque na hegemonia do lulismo/petismo converte-se em divisionismo; a apresentação de alternativas é denunciada como irresponsabilidade. Por outro lado, as alianças com forças conservadoras surgem como o preço inevitável para impedir algo pior, esquece-se facilmente o que Geraldo Alckmin, entre muitos outros, afirmavam quando Lula estava preso. Nesse contexto, o pequeníssimo campo da esquerda radical, que esteve na frente de várias mobilizações para denunciar a prisão de Lula e reivindicar a sua liberdade é “descartado” porque não legitima todas as táticas do lulismo. Em........
