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Homossexualidade: Da fogueira ao plenário

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09.05.2026

Há uma palavra que continua a circular no debate público português como se ainda fosse séria – e essa palavra é *antinatural*. Ouço-a quase todos os dias, dita com a convicção tranquila de quem julga estar do lado da ciência, da história e do bom senso – quando está, sobretudo, do lado da ignorância.

Comecemos pela natureza – já que é em nome dela que estes argumentos se fazem. Em 1999, o biólogo canadiano Bruce Bagemihl publicou Biological Exuberance – uma obra que documentou comportamento homossexual em mais de quatrocentas e cinquenta espécies animais, de insetos a primatas, de aves a peixes. O número real é seguramente maior – porque durante décadas os investigadores ignoraram ou esconderam observações desse tipo por puro pudor científico, como se a natureza tivesse de ser heterossexual porque eles tinham decidido que sim. Vinte anos depois, em 2019, um trabalho publicado na Nature Ecology & Evolution por Julia Monk e colegas partia já de mais de mil e quinhentas espécies registadas para defender uma tese ainda mais radical – a de que a espécie ancestral comum a todos os animais teria comportamento sexual indiscriminado, sendo a heterossexualidade exclusiva de uma adaptação posterior, não a regra biológica original.

Os bonobos – que são os nossos primos genéticos mais próximos – usam o sexo como linguagem social sem grande preocupação com o género do parceiro. Os pinguins-de-barbicha formam pares masculinos que cuidam de ovos. Em populações de carneiros domesticados, uma fração significativa dos machos não acasala com fêmeas em circunstância alguma. A natureza, portanto, não exclui a homossexualidade – inclui-a desde o princípio. Quem afirma o contrário não está a falar de natureza – está a falar de outra coisa qualquer a que dá esse nome.

Passemos à História – e aqui talvez convenha dizer uma coisa óbvia que parece deixar de o ser sempre que entra em campanha eleitoral. Se as pessoas tivessem prestado atenção nas aulas, ou se as aulas falassem destas matérias, este debate dispensava-se. Bastava um livro que não fosse o catecismo, bastava uma tarde numa biblioteca, para se perceber que a história da humanidade não confirma quase nada do que esta gente diz. A História pode esconder-se durante algum tempo, pode ficar de fora dos manuais, pode ser silenciada nos programas escolares – mas não se apaga, e quem a procura encontra-a.

Encontra, por exemplo, que na Mesopotâmia, há cerca de 3700 anos, existiam categorias de pessoas associadas aos templos cuja identidade e cuja sexualidade não cabiam no binário reprodutor. Encontra, na Grécia antiga, o Batalhão Sagrado de Tebas – uma tropa de elite composta por 150 pares de homens unidos por laços amorosos, considerada uma das forças militares mais eficazes do seu tempo entre 378 e 338 a.C. Encontra, em Roma, vários imperadores com relações conhecidas com homens – e Suetónio, na biografia de Júlio César, regista que o orador Cúrio, o Velho, se referia ao general como “marido de todas as mulheres e mulher de todos os homens”. O imperador Adriano amou Antínoo com tal intensidade que, depois da morte do jovem, lhe dedicou uma constelação, fundou uma cidade em sua honra e mandou cunhar moedas com o seu rosto. Heliogábalo, no século III, terá celebrado uniões públicas com homens – segundo as fontes antigas que sobreviveram até nós.

E encontra, fora do mundo greco-romano, a mesma diversidade. Em mais de quarenta sociedades da África Ocidental – entre as quais os Igbo da Nigéria, os Frafra do Gana e os povos do antigo Daomé, hoje Benim – existia a instituição do casamento entre mulheres, em que uma mulher de estatuto elevado podia assumir o papel social e jurídico de marido de outra mulher.........

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