O caso da mulher resgatada após 55 anos e o país que falhou com ela
O caso da doméstica resgatada após 55 anos e o país que falhou com ela
Naquela tarde de 2018, aos pés de Olinda, Luiza Batista, então coordenadora da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad), me deu uma aula sobre a história do Brasil. As melhores aulas sobre quem fomos até aqui geralmente acontecem assim, entre cafés, bolos e pessoas reais. Luiza fez sua passagem há um ano, quatro meses e nove dias. Conhecer sua vida e seu legado deveria estar na escola.
Ela me disse que fomos estruturados pela violência, pela exploração e pela impunidade, e me provou isso com histórias. Enquanto falávamos, chegaram mais duas mulheres, eu me lembro. Uma já mais velha, que desconfiava de que seus direitos trabalhistas não estavam sendo respeitados e precisava de apoio para confirmar. Outra, ali nos 20 e poucos anos, queria saber se era mesmo obrigada a dormir todos os dias na casa da família que a contratara poucas semanas antes. Tinha direito a apenas uma folga por mês.
Luiza interrompia nossa conversa, acolhia quem cruzava a porta e, algo de que não me esqueço, repetia sempre a mesma coisa, embora sempre de forma diferente: "Nós vamos te ajudar, minha irmã. Você não está sozinha, viu? Sente-se, pegue um cafezinho, alguém vai lhe atender daqui a pouco". E então voltava para nossa mesa.
Ronilso........
