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'Criações' feitas com IA não passam de ultraprocessados da mente

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14.02.2026

Jornalista especializado em biologia e arqueologia, autor de "1499: O Brasil Antes de Cabral"

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'Criações' feitas com IA não passam de ultraprocessados da mente

Adesão irrefletida às plataformas revela incapacidade de aprender com história das redes sociais

Sistemas nervosos como o nosso foram feitos para aprender com o processo, e não com atalhos

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Estarei mentindo se disser que não fico chocado com a adoção irrefletida da inteligência artificial para escrever textos (e ainda assim assiná-los como de próprio punho). Eis o que não me sai da cabeça: o fato de que a única lei férrea da história humana é a lei das consequências não pretendidas. (O problema das consequências, como já disse um sábio, é que elas vêm depois...)

Parece que não aprendemos grande coisa com o recente experimento de delegar a maior parte da aquisição de informações e das interações sociais de bilhões de pessoas a algoritmos nem um pouco transparentes, criados para maximizar apenas engajamento e lucro. Muita gente está mergulhando de cabeça num experimento muito parecido sem parar um instante para pensar em efeitos colaterais ou retroalimentações. Tentemos, pois, examinar essas possibilidades à luz do que sabemos sobre a cognição humana.

Primeiro, convém relativizar um pouco a frase "É só uma ferramenta". Nenhuma ferramenta "é só uma ferramenta", a começar pelo fato de que, conforme mostrou o trabalho do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis e de outros pesquisadores, nós e outros animais aprendemos rapidamente a criar uma representação virtual no nosso próprio cérebro de qualquer instrumento que usamos com frequência.

Em outras palavras, dizer que, para o pianista e o jogador de futebol, o piano e a bola "viraram uma extensão de seu corpo" não é mera força de expressão. E não há razão nenhuma para acreditar que a coisa seja diferente no caso de uma ferramenta virtual. Qualquer tipo de atalho físico ou cognitivo molda o sistema nervoso de quem o adota –e, amiúde, modifica-o de forma profunda.

Achar que não há consequências, em especial para cérebros em desenvolvimento, revela ainda uma ignorância abissal sobre como seres vivos aprendem qualquer coisa, de andar de bicicleta a escrever um soneto. Temos descoberto isso da pior maneira com o declínio da escrita com lápis e caneta em papel, por exemplo. Ou com a diminuição cada vez maior da atividade física em todos os aspectos.

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Espero sinceramente que ninguém imagine que a estimulação elétrica de alguns músculos enquanto a pessoa está sentada terá o mesmo efeito que correr cinco quilômetros e fazer uma hora de musculação. Ou que engolir cápsulas de vitaminas e sais minerais alimente tanto quanto uma refeição balanceada com comida de verdade.

O fato de que corpos e mentes de animais como nós foram "desenhados" para ter uma trajetória de desenvolvimento baseada em experiências reais ou ativamente simuladas pelas nossas capacidades imaginativas independentes significa que o aprendizado "procedural" –vale dizer, não queimar etapas para aprender, mas atravessar todos os passos necessários para colocar um raciocínio no papel e poder defendê-lo– faz diferença.

Textos cuspidos por um papagaio estocástico à la Chat Chupetex são os ultraprocessados da mente. Achar que é possível nutrir mentes humanas com eles equivale a esperar saúde perfeita depois de passar meses comendo exclusivamente miojo da Turma da Mônica e mistura láctea/soja sabor leite condensado. Para os que alardeiam que se trata de algo "inevitável" só para maquiar a própria indolência, sugiro que parem de brincar de Thanos –a gente sabe como isso termina.

Autor do blog Darwin e Deus, sobre ciência e religião, e especialista em história do catolicismo

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