'Criações' feitas com IA não passam de ultraprocessados da mente
Jornalista especializado em biologia e arqueologia, autor de "1499: O Brasil Antes de Cabral"
Recurso exclusivo para assinantes
'Criações' feitas com IA não passam de ultraprocessados da mente
Adesão irrefletida às plataformas revela incapacidade de aprender com história das redes sociais
Sistemas nervosos como o nosso foram feitos para aprender com o processo, e não com atalhos
dê um conteúdo benefício do assinante Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler. benefício do assinante Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha. Já é assinante? Faça seu login ASSINE A FOLHA
benefício do assinante
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
benefício do assinante
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.
Salvar para ler depois Salvar artigos Recurso exclusivo para assinantes assine ou faça login
Recurso exclusivo para assinantes
Estarei mentindo se disser que não fico chocado com a adoção irrefletida da inteligência artificial para escrever textos (e ainda assim assiná-los como de próprio punho). Eis o que não me sai da cabeça: o fato de que a única lei férrea da história humana é a lei das consequências não pretendidas. (O problema das consequências, como já disse um sábio, é que elas vêm depois...)
Parece que não aprendemos grande coisa com o recente experimento de delegar a maior parte da aquisição de informações e das interações sociais de bilhões de pessoas a algoritmos nem um pouco transparentes, criados para maximizar apenas engajamento e lucro. Muita gente está mergulhando de cabeça num experimento muito parecido sem parar um instante para pensar em efeitos colaterais ou retroalimentações. Tentemos, pois, examinar essas possibilidades à luz do que sabemos sobre a cognição humana.
Primeiro, convém relativizar um pouco a frase "É só uma ferramenta". Nenhuma ferramenta "é só uma ferramenta", a começar pelo fato de que, conforme mostrou o trabalho do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis e de outros pesquisadores, nós e outros animais aprendemos rapidamente a criar uma representação virtual no nosso próprio cérebro de qualquer instrumento que usamos com frequência.
Em outras palavras, dizer que, para o pianista e o jogador de futebol, o piano e a bola "viraram uma extensão de seu corpo" não é mera força de expressão. E não há razão nenhuma para acreditar que a coisa seja diferente no caso de uma ferramenta virtual. Qualquer tipo de atalho físico ou cognitivo molda o sistema nervoso de quem o adota –e, amiúde, modifica-o de forma profunda.
Achar que não há consequências, em especial para cérebros em desenvolvimento, revela ainda uma ignorância abissal sobre como seres vivos aprendem qualquer coisa, de andar de bicicleta a escrever um soneto. Temos descoberto isso da pior maneira com o declínio da escrita com lápis e caneta em papel, por exemplo. Ou com a diminuição cada vez maior da atividade física em todos os aspectos.
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
Espero sinceramente que ninguém imagine que a estimulação elétrica de alguns músculos enquanto a pessoa está sentada terá o mesmo efeito que correr cinco quilômetros e fazer uma hora de musculação. Ou que engolir cápsulas de vitaminas e sais minerais alimente tanto quanto uma refeição balanceada com comida de verdade.
O fato de que corpos e mentes de animais como nós foram "desenhados" para ter uma trajetória de desenvolvimento baseada em experiências reais ou ativamente simuladas pelas nossas capacidades imaginativas independentes significa que o aprendizado "procedural" –vale dizer, não queimar etapas para aprender, mas atravessar todos os passos necessários para colocar um raciocínio no papel e poder defendê-lo– faz diferença.
Textos cuspidos por um papagaio estocástico à la Chat Chupetex são os ultraprocessados da mente. Achar que é possível nutrir mentes humanas com eles equivale a esperar saúde perfeita depois de passar meses comendo exclusivamente miojo da Turma da Mônica e mistura láctea/soja sabor leite condensado. Para os que alardeiam que se trata de algo "inevitável" só para maquiar a própria indolência, sugiro que parem de brincar de Thanos –a gente sabe como isso termina.
Autor do blog Darwin e Deus, sobre ciência e religião, e especialista em história do catolicismo
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
dê um conteúdo benefício do assinante Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler. benefício do assinante Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha. Já é assinante? Faça seu login ASSINE A FOLHA
benefício do assinante
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
benefício do assinante
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.
Salvar para ler depois Salvar artigos Recurso exclusivo para assinantes assine ou faça login
Recurso exclusivo para assinantes
Leia tudo sobre o tema e siga:
inteligência artificial
sua assinatura pode valer ainda mais
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas (conheça aqui). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
sua assinatura vale muito
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Leia outros artigos desta coluna
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/reinaldojoselopes/2026/02/criacoes-feitas-com-ia-nao-passam-de-ultraprocessados-da-mente.shtml
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
notícias da folha no seu email
notícias da folha no seu email
Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo, Elio Gaspari, Djamila Ribeiro, Tati Bernardi, Dora Kramer, Ruy Castro, Muniz Sodré, Txai Suruí, José Simão, Thiago Amparo, Antonio Prata e muito mais.
Técnica 'vê' subsolo sem cavar e facilita mineração sustentável
Técnica 'vê' subsolo sem cavar e facilita mineração sustentável
Onças-pintadas caçavam feras com quase 1 tonelada na Era do Gelo
Onças-pintadas caçavam feras com quase 1 tonelada na Era do Gelo
Mais antigas flechas envenenadas têm 60 mil anos, afirma estudo
Mais antigas flechas envenenadas têm 60 mil anos, afirma estudo
