Bienal de São Paulo muda contrato com curadores depois de extravagâncias
Silas Martí é jornalista e crítico de arte. Editor de Ilustrada, foi correspondente em Nova York e escreve sobre arte, arquitetura e design
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Bienal de São Paulo muda contrato com curadores depois de extravagâncias
Exigências como não identificar artistas podem ser banidas
Último curador não quis informações claras sobre as obras
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Não pegou nada bem. A última Bienal de São Paulo, sob o comando do camaronês Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, irritou público e crítica com uma postura um tanto arrogante de sua direção artística, que decidiu esconder os nomes dos artistas e o contexto em que seus trabalhos foram criados na montagem das obras no pavilhão desenhado por Oscar Niemeyer no parque Ibirapuera.
Isso sem contar com a arquitetura pesadíssima da exposição, que mais escondia do que mostrava os trabalhos, com um excesso de cortinas coloridas por todos os lados. Os artistas da própria mostra, aliás, estavam entre os que mais reclamaram, em rodinhas de conversa, em jantares e vernissages por aí, em que todos deixavam claríssima a insatisfação com um arranjo de peças um tanto obscuro.
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Essa inquietação chegou ao comando máximo desta que é uma das mostras de arte contemporânea mais relevantes do mundo, a segunda mais tradicional depois da Bienal de Veneza, na Itália, que ocorre desde o fim do século 19.
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O conselho da Fundação Bienal de São Paulo decidiu impor o que um de seus nomes do alto escalão chamou de "guardrails", ou guarda-corpos jurídicos, na elaboração de contratos com os próximos diretores artísticos da mostra. A ideia é evitar que, por excessos conceituais, a mostra se vire contra o público, que precisa fazer malabarismos para saber quem fez o trabalho diante de seus olhos.
É um ponto delicado. Grande parte do robusto orçamento da Bienal de São Paulo é dinheiro público, que chega pela Lei Rouanet, e há um compromisso claro e nítido com a ideia de formação de plateias e projetos educativos ali —aliás, são louváveis os esforços da equipe da mostra de traduzir todos os outros mundos para a realidade de um país desigual como o Brasil, em que arte contemporânea não é língua franca e certas barreiras só são quebradas com muita boa vontade.
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E mais delicado ainda é outro ponto. Exigir legendas nas obras, simples e diretas, não parece uma violação do poder criativo de quem dirige a exposição, mas a letra miúda precisa ser muito bem escrita. A radicalidade nas montagens, por bem ou por mal, também faz parte da tradição desse tipo de mostra —há quem celebrou e quem apedrejou, por exemplo, a polêmica edição da Bienal de São Paulo organizada por Sheila Leirner, em 1985, que pôs as pinturas de todos os artistas lado a lado sem quase nada de intervalo, a tal "Bienal da grande tela".
O objetivo da mostra agora, que acaba de renovar o mandato de sua presidente, Andrea Pinheiro, parece ser manter a excelência e o frescor de suas exposições sem esquecer, porém, algum grau de transparência e acessibilidade que torne tudo mais palatável para o público, já que essa é uma preocupação importante da instituição —a 36ª Bienal de São Paulo, que esteve em cartaz durante um mês a mais que o normal, chegou ao fim em janeiro com 784 mil visitantes, um aumento de 20% em relação à edição anterior.
Procurada, a Fundação Bienal de São Paulo disse que não comentaria as mudanças em contratos futuros realizados pela instituição.
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