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Haaland doou livro de R$ 700 mil para uma biblioteca. E os nossos craques?

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Haaland doou livro de R$700 mil para uma biblioteca. E os nossos craques?

Difícil não ficar pensativo com o que fez Erling Haaland. O atacante norueguês, espécie de Washington turbinado do Manchester City, abriu o bolso e pagou 1,3 milhão de coroas norueguesas, coisa de R$700 mil, num livro.

Nunca alguém tinha desembolsado tanto por uma única obra na Noruega. Não era um livro qualquer, claro, mas uma edição de 1594 da "Saga dos Reis", de Snorri Sturluson, escritor que viveu na virada do século 12 para o 13.

Povoada por vikings, reis, rainhas, guerreiros e fazendeiros, a saga é peça-chave para a cultura e a história dos países escandinavos. O conteúdo pode ser encontrado em publicações muito mais recentes. O valor volume adquirido por Haaland está na raridade da edição com mais de 400 anos.

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Surpresa maior foi o que o atacante fez com o novo brinquedo. Assumiu não ser um grande leitor. Ainda assim, reconhece o valor da leitura e deseja incentivar tal hábito. Por isso, doou a preciosidade para a biblioteca pública de Bryne, cidade onde cresceu, na esperança de que a proximidade com o calhamaço centenário possa fazer com que jovens se identifiquem com a saga, fundamental para a tradição local, e passem a dedicar mais tempo aos livros.

Haaland deixou uma única exigência: que a obra esteja sempre exposta ao público. Aproveitando a ocasião, escolas locais promoverão um concurso de leitura (procurarei saber como será isso, prometo) e o vencedor será levado para Oslo, onde assistirá a um jogo da seleção norueguesa.

E os nossos craques, hein?

É tentador pegar uma notícia como essa e transformar Haaland num exemplo para contrapor com os boleiros do Brasil. Não sejamos tão vira-latas. O que fez o norueguês é exceção, não regra entre esportistas, independente da nacionalidade ou da modalidade praticada. Não é só aqui que atletas, sem ter onde enfiar tanta grana, passam seus dias entre carrões, correntes de ouro e promoções de bets.

Também temos nossos raros orgulhos, em todo caso.

Anos atrás, pipocaram reportagens que mostravam a faceta literária de Gustavo Scarpa. Festejavam o meia que alternava os jogos pelo Palmeiras com leituras de autores como Machado de Assis e Franz Kafka. Ainda me tira risadas lembrar dele chamando Gregor Samsa de "moleque inseto". A história de "A Metamorfose" começa com o protagonista acordando transformado num bichão estranho.

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Seria bom ver mais jogadores falando de livros como Scarpa fala. Ou falava. Há anos que não atualiza o destaque do seu Instagram onde reúne leituras. Terá perdido o interesse? Não me parece. Num vídeo já com a camiseta do Atlético Mineiro, seu atual time, o meia indica títulos favoritos, dentre eles coisas finas como "Os Miseráveis".

Na verdade, temos um problema ainda mais sério. No Brasil, jogadores de futebol vivem num meio que reprime quem ousa se portar de maneira diferente e contrariar certos estereótipos. É enorme a pressão para que todos se comportem seguindo pequenas variações de um padrão. Vai falar de cultura, rapaz? A resenha aqui é outra, se liga.

Bem antes de Scarpa, outro jogador começou a se destacar por conta das leituras que fazia e comentava. Tentei entrevistar esse atleta. Entrei em contato com a assessoria do time em que estava. Insisti até receber a seguinte mensagem: ele não quer mais falar sobre livros, o assunto pega mal entre os outros jogadores.

Ser alguém que falava de livros azedava o clima para o jogador dentro do vestiário. Os colegas, pelo visto, não se limitavam a desprezar os livros. Tinham, isso sim, ojeriza a qualquer vestígio de intelectualidade.

Adoraria que o mundo fosse cheio de Haalands capazes de desembolsar fortunas pelos livros e pela cultura. Já me contentaria com menos, no entanto: que ser leitor não fosse motivo para constrangimentos em ambientes que parecem venerar a mediocridade.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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