Países ainda negociam metas enquanto povos amazônicos já vivem compromissos
Países ainda negociam metas enquanto povos amazônicos já vivem compromissos
A palavra da vez nas conferências climáticas é adaptação. Mas adaptação a que, e de quem?
Tenho dedicado minha vida a encontros, diálogos e fazeres com pessoas que concretizam suas culturas nos lugares mais diversos do Brasil: artistas, mestres, jovens produtores, mulheres que organizam em rede, gente que segura o território com o corpo e a palavra. E é impossível não perceber: são essas pessoas, e não as conferências globais, que estão desenhando o futuro.
Há algo profundamente equivocado no modo como as decisões sobre o clima são tomadas. As COPs seguem girando em torno de métricas, fundos e compromissos que não chegam a quem mantém a floresta viva. E quando chegam, chegam moldados em uma lógica de "salvação" que continua tratando a Amazônia como laboratório e não como autoria.
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Talvez esteja na hora de inverter a pergunta: e se a adaptação que o planeta precisa for às formas de viver que já existem aqui?Na prática, estamos vendo mais do mesmo: metas genéricas, compromissos adiados e um discurso que insiste em tecnificar o problema -- como se a vida pudesse ser corrigida a base da canetada. Como se houvesse tempo para esse espetáculo alegórico. Mas o que está em jogo é outra coisa.
Não é sobre se adaptar ao colapso, e sim sobre reaprender o que significa existir em relação com o mundo. É sobre entender que adaptação não é submissão: é reciprocidade. E nisso, os Estados envolvidos na COP ainda tem muito a aprender com a Amazônia. Talvez o verdadeiro pacto climático esteja em redistribuir o poder de imaginar.
É esse gesto de contracolonização que dá origem à Casa Dourada, um espaço em Belém que faz da cultura o centro do debate climático. Não como entretenimento paralelo, enquanto a discussão se reserva à blue zone, mas como política de transição, tecnologia de travessia que pode reorganizar o planeta, a partir do olhar amazônida que resiste há séculos. Porque cultura, na Amazônia, é muito mais que expressão -- é infraestrutura de sobrevivência, rede de apoio, economia viva e escola de convivência.A gente costuma ouvir que "a Amazônia é o pulmão do planeta". Mas ela é, sobretudo, sua consciência, suas mãos e seus pés. E as pessoas que a habitam carregam códigos que parte do mundo ainda se recusa a absorver: o tempo do rio, o pacto da festa, o poder do afeto como linguagem política, o senso de comum que organiza a vida coletiva. Enquanto os acordos internacionais discutem quem paga a conta, comunidades inteiras seguem praticando o equilíbrio que o resto do planeta só teoriza.
Para a COP30, ecoamos uma ideia: a cultura amazônica é uma tecnologia de transição. E isso não é metáfora. É método. Nossas rodas, encontros e performances representam como as práticas culturais se tornam elementos reais de transformação: falamos do corpo e do território, tudo partindo da mesma pergunta: quem detém o poder de propor o futuro realmente sabe fazê-lo?
No fundo, o que está em disputa não é apenas a floresta, mas quem define o que é desenvolvimento, o que é conhecimento, o que é valor. Nego Bispo, ao propor a desorganização das estruturas organizativas, nos lembra que há outras formas de produzir vida e saber, mas elas só ganham força quando têm também o poder de decisão. Por isso, é hora de abrir espaço para que o nosso Norte fale e conduza — não como exceção, mas como direção.
A Amazônia é uma experiência viva de futuro, que mostra o que já existe, o que já funciona. E é aí que o tempo se dobra. Na cosmovisão africana, Exu mata um pássaro ontem com a pedra que lançou hoje, porque o tempo é travessia, não linha reta. Na Amazônia, quem ensina isso é o Curupira, guardião da floresta de pés virados para trás, que confunde quem tenta dominar o que não entende. Ambos revelam o mesmo princípio: o futuro não se corre em linha, se desenha em curvas. Tem ginga e malícia, mas também muito respeito ao que é anterior e sagrado.
E é essa sabedoria do caminho que retorna que nos inspira na Casa Dourada — cujo nome que vem do peixe que, ao contrário da lógica humana, nada contra a corrente para gerar vida nova. A dourada é símbolo de travessia e renascimento: vai e volta, mistura águas, prova que a força da sobrevivência está no movimento, não na fuga. Assim é o tempo amazônico: espiral, vivo, feito de idas e vindas. O mundo chama isso de adaptação. Aqui, a gente chama de continuidade.
As populações ribeirinhas, indígenas, pretas e periféricas vivem há séculos em sistemas de cooperação, manejo e partilha que hoje o norte global chama de transição ecológica. Mas o que o planeta ainda não entendeu é que essa transição já tem sotaque, ritmo e corpo: o da cultura amazônica. Porque o que está colapsando não é a floresta — é o modelo de humanidade que se separou dela. A tecnologia mais avançada que existe é saber viver junto. As práticas ancestrais são provas vivas de uma base organizativa dos comuns, onde o valor não está no acúmulo, mas na partilha.
Estamos falamos, portanto, em transição de olhar. Porque não há neutralidade de carbono possível sem romper a lógica de exploração que nos trouxe até aqui. Deixo o convite a todos os pensadores do amanhã, que representam instituições embranquecidas, de origens pretensiosamente desenvolvidas, a dar um passo para o lado e a reconhecer que há outras formas de fazer, cuidar e decidir. O mundo precisa parar de tentar adaptar a Amazônia às suas agendas e começar a se adaptar às inteligências que emergem dela.
Não é romantismo, é técnica de sobrevivência e também projeto político. Em 2025, Belém não será só palco ou cenário para decisões tratadas entre chefias de diferentes países; todas as pessoas que estão se movimentando em sua direção estão empenhadas em uma disputa de poder. Poder para decidir, propor e conduzir as travessias que tanto se adia. Abram caminho!
E se há algo a aprender durante a COP30 é que talvez o caminho para um futuro possível esteja menos nas cúpulas e mais nas casas, nas rodas, nas redes. Porque quem entende de travessia já está por aqui — vivendo, criando e mostrando que o mundo ainda pode se reinventar.
*Poema Portela é socióloga, pesquisadora e curadora da Casa Dourada durante a COP30.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
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