Fim da escala 6x1: o brasileiro trabalha pouco ou sofre de exaustão?
Fim da escala 6x1: o brasileiro trabalha pouco ou sofre de exaustão?
"A luta pela justiça social começa por uma reivindicação do tempo: "eu quero aproveitar o meu tempo de forma que eu me humanize". A frase é do sociólogo e crítico literário Antonio Candido, que, na mesma ocasião, afirmou que — ao contrário do que esse mundo nos faz crer — tempo não é dinheiro, mas o tecido da vida.
A escala 6x1 é uma jornada de trabalho na qual a pessoa trabalha seis dias consecutivos e descansa um. O fim da escala 6x1 está em debate em função de projetos de lei que tramitam no Congresso Nacional.
Neste episódio do podcast Calma Urgente, encontrei uma boa definição para quem é contra o fim da escala 6x1: "são pessoas contra o fim de semana", contra o descanso.
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Talvez seja por isso que, desde que li algumas matérias amplificando os resultados do estudo "Brasil e a redução de jornada: o que dizem os dados globais", realizado pela FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), eu fiquei incomodada com o tom que a interpretação desses dados gerou na imprensa e no debate público (o bom é que encontrei também contrapontos).
Na perspectiva da minha pesquisa — sobre as relações entre aceleração social do tempo, bem-estar, saúde mental e cuidado — a conversa sobre o fim da escala 6x1 é sobre o direito ao descanso. Neste momento, divulgar uma pesquisa afirmando que o brasileiro trabalha menos do que a média mundial pode ser bem capcioso.
Até porque a dedução imediata é de que trabalhamos pouco e que, por um componente que seria "cultural", tendemos a trabalhar menos do que as pessoas de outros países. Mas será?
É preciso contextualizar muito esse dado, para que ele não seja apropriado como informação de que deveríamos trabalhar mais ou de que trabalhamos pouco ou ainda para que não seja interpretado como "somos preguiçosos". Não é verdade que trabalhamos pouco no Brasil.
Para fazer essa conversa com honestidade, seria preciso considerar agendas que, historicamente, não temos fôlego para encarar, como a redução de jornada com manutenção de salários, o direito ao trabalho para todos, as políticas de distribuição de renda e — por fim, mas não menos importante — as chamadas "alternativas sistêmicas" à lógica de crescimento, desenvolvimento, avanço e progresso à qual nossos sistemas econômicos estão conectados. A pesquisa mostra, por exemplo, que em países que consideramos "mais desenvolvidos" as pessoas trabalham menos.
O debate sobre o trabalho e o direito ao descanso não pode estar desconectado do cenário relacionado a outros direitos. Como uma pessoa descansa sem ter direito à moradia, ao saneamento básico, à educação, à saúde, à alimentação?
Seria também preciso considerar que, além do trabalho formalmente registrado, muitos brasileiros trabalham na informalidade ou duplicam e triplicam suas jornadas de trabalho com o trabalho invisível, não remunerado e não reconhecido de cuidado (especialmente as mulheres, neste caso). Um estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostra que "o simples fato de ser mulher leva a um aumento de 11 horas por semana no trabalho doméstico e de cuidados não remunerado".
Seria preciso trazer para a mesa as desigualdades profundas que atravessam as pessoas e como essas desigualdades determinam o direito ao tempo livre e o acesso que essas pessoas têm ao lazer e ao descanso.
E precisamos olhar para a exaustão generalizada.
É muito perigoso usar uma pesquisa que aponta um dado relativo para falar de um tema tão complexo. Neste texto, Erik Chiconelli Gomes, doutor e mestre em História Econômica pela USP, explica que "comparações internacionais são boas para descrever posições relativas, mas não servem para prever o que acontece quando um país altera suas regras. Para isso, é preciso outro tipo de evidência".
Reproduzo aqui um trecho em que ele me ajudou a entender melhor a questão: "a primeira confusão é entre posição relativa e recomendação de política. Saber que o Brasil está um pouco abaixo da média condicional não diz nada sobre o que aconteceria se a jornada fosse reduzida. A segunda é entre jornada legal e jornada real. A lei permite 44 horas semanais, mas o brasileiro já trabalha, em média, 39,2 horas. A terceira é entre custo bruto e custo líquido. O custo por hora sobe quando a jornada cai, mas as empresas não ficam paradas diante desse aumento. Elas ajustam, e a evidência mostra que esse ajuste absorve boa parte do impacto".
Aqui no UOL Economia, o pesquisador responsável pelo estudo conta que "não há nada no estudo que fale que o que acontece no caso do Brasil é mais preguiça. Isso não é uma discussão moral. Não há nenhum problema de a gente ter essa diferença e ainda assim apoiar reduzir a jornada".
No entanto, eu queria chamar atenção para o risco de estudos como esse caírem nessa vala e reforçarem estereótipos que, resgatados, reforçam a cultura da produtividade tóxica e a plausibilidade de uma vida dedicada ao trabalho. Em um país escravocrata e que tem uma lei chamada "lei da vadiagem", devemos concordar que existe um risco.
Claro que há um debate técnico no mundo da economia, mas olhando da perspectiva do direito ao descanso, acredito que começar a discuti-lo como um dos marcos que orientam as políticas públicas pode ser uma forma de entender que, se estamos todos exaustos e cansados, as saídas para esses sintomas também devem ser coletivas.
Acredito que, ao fazê-los, estamos deixando de ser cronomeritocráticos e vamos colocando no horizonte outras formas de habitar esse mundo, mais conectadas com alternativas como o decrescimento, o bem viver, o ecofeminismo e outras plataformas políticas que olham para o bem-estar, o cuidado e a saúde mental como questões coletivas.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
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