Por que homens progressistas não se posicionam sobre notícias de estupro?
Por que homens progressistas não se posicionam sobre notícias de estupro?
Todo mundo tem opinião sobre tudo. O avião que o político jovem de direita usou, o plano de vingança de um banqueiro corrupto contra um jornalista que o denunciou, a cor do boné que o filho de um ex-presidente usa em suas longas férias remuneradas pelo dinheiro público nos EUA. Todo mundo passa o dia com o dedinho nervoso digitando opinião em rede social.
Todo mundo acha que a Virginia deveria se posicionar sobre os casos de racismo contra seu namorado, Vini Jr., por exemplo. E digita e posta e compartilha e reclama.Mas aí o aterrorizante acontece: uma garota denuncia seus agressores sexuais, a maioria recém chegados à maioridade, que agiam coletivamente e com violência em um apartamento de classe média em Copacabana, o bairro mais famoso do Brasil. Estupro coletivo, o termo, choca mesmo que não houvesse a denúncia. As caras dos rapazes foragidos estampadas nos stories que temos visto por aí deixa tudo ainda mais indigesto - eles poderiam ser seus vizinhos, seus alunos, filhos de seus amigos? eles poderiam morar na sua casa. Eles efetivamente moram na casa de alguém. Como a coisa chegou a esse ponto?
Nas redes sociais, as mulheres vociferam. Os números voltam à tona e dão conta do terror. Uma em cada oito mulheres já foi estuprada antes dos 18 anos. 97% das mulheres tem medo de ser estuprada. No bBasil, segundo o Atlas da Violência 2024, quase metade das meninas de 10 a 14 anos já sofreu violência sexual. A cada oito minutos uma mulher é estuprada.
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Mas os homens não parecem ter muito a dizer sobre o assunto. Aqueles que estão indignados com a demissão do técnico do Flamengo ou o próximo time carioca que Renato Gaúcho vai treinar não estão assim tão preocupados com cultura do estupro ou naturalização do abuso. E as mulheres têm reclamado disso (também).
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Afinal, se racismo é problema também de brancos não-racistas — falar sobre isso é o que nos torna antirrascistas, inclusive —, cultura do estupro é questão a ser debatida por homens não-estupradores, claro. É dessa maneira que criamos uma sociedade onde a violência sexual é intolerada de tal forma que educamos jovens que sequer cogitem essa possibilidade.
Todo mundo concorda com isso. Mas por que os caras não querem falar do assunto?
Diante das cobranças das moças, vi alguns amigos escreverem stories indignados, convocando os parças ao debate. Meus amigos dizem que o assunto pipocou nas redes deles e nos grupos de Whatsapp. A maioria das conversas questionava: afinal, o que eles, que definitivamente não estavam naquele apartamento em Copacabana, podem fazer?
Uma vez fiz a burrada de perguntar para a ativista feminista Patricia Hills Collins qual era o papel dos brancos na cultura antirracista. Ela permaneceu imóvel me olhando, sem responder. Eu repeti a pergunta de outra maneira, achando que ela não havia compreendido meu inglês. Ela tinha, sim. Só avisou que não responderia isso para uma pessoa branca e que eu mesma deveria achar a resposta.
Será que homens famosos não deveriam encabeçar o debate do assunto? Esses que falam para além da bolha. E também os que estão restritos à metade progressista do país — afinal, o que não falta é moderninho violentador por aí, sabemos. A responsabilidade do alcance só vale na hora de virar voto ou se indignar com corrupção de político? É complicado deixar claro para os amigos na internet que não compactua com crime sexual? E conversar sobre isso é chato com tanto campeonato de futebol rolando simultaneamente? Hm? sei não.
Depois de uma tarde conversando com diversos amigos homens sobre o assunto e me esforçando longamente em pensar o que queremos deles, não cheguei à conclusão prática alguma. Me deu vontade de fazer a Patricia Hill Collins e dizer que se virem aí para achar a solução para o problema definitivamente criado por vocês mesmos. Postar um story não resolve nada. Uma confissão de culpa da cumplicidade com crimes pregressos dos amigos, ou deles próprios, também é improvável de se obter.
Como esses homens que convivem conosco e repudiam o crime de Copacabana podem agir em conjunto para que todo homem hétero ache inviável abusar de uma mulher bêbada, por exemplo? Como devem reagir às histórias que eles se gabam contando quando entenderem a violência ali embutida? Como é que vão perceber que aquilo é violência, se não conversarem exaustivamente em si e ouvirem a opinião das mulheres com quem convivem ou que estão de graça mostrando caminho das pedras nas redes sociais?
A sociedade está precisando da força de vontade masculina para mergulhar em uma questão que nunca os atingirá. Eu duvido um pouco que aconteça, mas não posso perder a esperança.
Se nem esperança a gente tiver de um dia sair na rua sem tanto medo, aí, sim, perdemos tudo mesmo.
Você pode discordar de mim no Instagram.PS.: Já escrevi sobre o não que o homem entende como sim aqui. E sobre meninos de boa família se tornarem estupradores aqui. Ambos os textos citam o livro Missoula, de Jon Krakauer, que relata os casos de universitárias estupradas por amigos que achavam que estavam mandando bem na faculdade americana. É um bom começo de debate.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
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