Lula ataca bets de olho no voto de mulheres cansadas das dívidas dos homens
Lula ataca bets de olho no voto de mulheres cansadas das dívidas dos homens
De olho no voto das mulheres, Lula cacetou as bets ontem em entrevista a Eduardo Moreira e Leandro Demori, do ICL Notícias. O presidente, que contou com o apoio da maioria desse eleitorado em 2022, explora o fato de que muitas mulheres veem o endividamento de suas famílias crescer por conta das apostas dos homens.
"Se depender de mim, a gente fecha as bets", disse. "Não é possível a gente continuar com essa jogatina desenfreada neste país. Isso leva a sociedade a cometer desvios", disse o petista. Para ele, o endividamento está sendo bombado pelas promessas de "ganho rápido" da jogatina digital.
"Todo mundo quer ganhar um dinheirinho a mais, mas, quando a pessoa está viciada no jogo, tem que tratar isso como uma questão de saúde. Eu conheço pessoas que perderam o carro, perderam a casa. Pessoas que se matam", afirmou.
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Na entrevista, ele apontou que uma decisão depende do Congresso Nacional e culpou o lobby das bets. "Eu sei que eles financiam [campanhas]. Eu poderia até citar nomes, porque eu não sou policial. Mas todo mundo sabe quem são os deputados que estão envolvidos nisso, quem são os partidos que estão envolvidos nisso, quem são os senadores, todo mundo sabe", afirmou.
Mais um pouco e Lula falaria o nome do senador Ciro Nogueira (PP-PI), amigo do empresário piauiense Fernando Liveira Lima, o Fernandin OIG, dono de casas de apostas como 7 Games Bet, R7 Bet e Betão.com. Segundo a Polícia Federal, ele é responsável por ter trazido o Jogo do Tigrinho ao Brasil. Reportagem de João Batista Jr., da revista piauí, conta a história das viagens de Ciro e seu amigo, divertindo-se pelo mundo.
Não que mulheres também não apostem e se lasquem com isso, mas o perfil do apostador é eminentemente masculino. Muitas têm visto seus maridos, pais e filhos jogarem fora o dinheiro do orçamento doméstico, acreditando que bet é fonte de renda. E depois elas arcam com as consequências, tal como ocorre em famílias destruídas pelo vício em drogas. É com esse público que Lula falou na entrevista ao ICL.
Indicadores econômicos melhoram, mas o humor da população não. O PIB cresce, o desemprego cai, a renda média sobe e a inflação dá sinais de controle - ainda assim, a sensação difusa é de aperto. Como tenho repetido aqui, feito um papagaio com cãibra, isso tem muito a ver com a percepção do custo de vida, com preços que subiram e não caíram, mas há um outro elemento nessa equação: a transformação silenciosa do orçamento das famílias pelas bets.
Reportagem de João José Oliveira, no UOL, já havia apontado que as apostas online se tornaram o principal fator de endividamento das famílias brasileiras, superando o impacto do crédito e dos juros no orçamento, segundo estudo do Ibevar (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo) e da FIA Business School.
O impacto disso não aparece imediatamente nas estatísticas macroeconômicas, mas se manifesta na vida real: na conta de luz atrasada, no carrinho de supermercado mais vazio, no remédio que deixa de ser comprado. Pesquisas mostram que uma parcela relevante dos apostadores compromete a própria renda mensal com jogos, sacrificando despesas básicas — inclusive alimentação, educação, moradia e outros serviços essenciais. Sim, bets geram carestia.
As bets funcionam como um imposto informal, regressivo e sem retorno social, com uma dinâmica de consumo que mistura entretenimento, promessa de ascensão rápida e engenharia comportamental desenhada para viciar. Ao fim, o resultado é o enriquecimento de donos de plataformas e dos políticos que se aproveitam da amizade com eles.
A CPI das Bets, que prometia moralizar o setor, passou vergonha no Senado, sem resultados concretos. Ficou marcada pela imagem de parlamentar mais preocupado em tirar selfie com influenciadora que promovia apostas e foi chamada para depor do que evitar que bets roubassem dinheiro e saúde dos brasileiros.
Ironicamente, diante do vácuo deixado pelos governos anteriores, Lula regulamentou as bets no final de 2023. E fez uma ameaça no ano seguinte: "Nós vamos ver se a regulação dá conta. Se a regulação der conta, está resolvido o problema. Se não der conta, eu acabo", declarou à rádio Metrópole, de Salvador. Bem, não deu conta.
A proibição das bets é uma discussão importante, mas uma batalha de médio e longo prazo. Não só porque o lobby delas hoje no Congresso é mais forte que o das bancadas evangélica, ruralista ou da segurança pública, mas porque o dinheiro que flui nesse ecossistema irriga o futebol e a mídia, além de influenciadores muito bem pagos para mentir por elas. Ou seja, vai ter resistência.
A expansão das bets ocorreu com uma agressividade publicitária que normalizou o risco como se fosse lazer inofensivo. No curto prazo, faz-se, portanto, necessária a proibição de toda a propaganda, tal como ocorreu com o tabaco, campanhas educativas que mostrem que o dano causado por bets pode ser tão ruim quanto o trazido pelo crack e limites à exploração desse mercado.
Não vai ganhar votos com homens irresponsáveis, mas certamente muitas mulheres vão se sentir mais aliviadas.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
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