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Bolsonaro reeleito teria atendido chamado dos EUA para guerra no Irã?

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23.03.2026

Bolsonaro reeleito teria atendido chamado dos EUA para guerra no Irã?

Durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), a política externa brasileira trocou a tradição diplomática do país, historicamente independente, pragmática e multilateral, por um alinhamento quase automático aos interesses de Donald Trump e dos Estados Unidos. Em vez de uma diplomacia que dialogava com diferentes polos de poder, adotou-se uma espécie de vassalagem ideológica. Não a um país, mas a um governo.

Esse movimento foi vendido como coisa de realista. Na prática, soou mais como coisa de capacho.

O problema de transformar política externa em torcida organizada é que o mundo não para de girar enquanto a gente veste a camisa. E ele costuma girar em direção a crises. Se aquela lógica de alinhamento automático tivesse continuado, o Brasil poderia hoje se oferecendo feito um poodle para atender um chamado militar de Washington DC.

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Uma escalada militar envolvendo o Irã pressionou as rotas energéticas globais, com o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no planeta, sendo fechado por Teerã por retaliação aos bombardeios dos EUA e de Israel. O comércio mundial prende a respiração, o preço do diesel escala, os alimentos vão junto. Daí, o líder norte-americano ameaça aliados, que não tinham nada a ver com a história, para ajudar a "garantir a liberdade"

Se a lógica de política externa baseada em alinhamento automático estivesse vigente, o Brasil correria o risco de transformar solidariedade diplomática em participação estratégica. Não porque haja responsabilidade ou interesse do nosso país naquele conflito, mas porque a relação vinha sendo construída sob a premissa de que discordar do patrão seria quase uma traição.

Trump tanto pressionou os aliados que 22 países assinaram um comunicado conjunto condenando o bloqueio das rotas e declarando apoio à desobstrução e segurança da navegação no Estreito de Ormuz: Alemanha, Austrália, Bahrein, Canadá, Coreia do Sul, Dinamarca, Emirados Árabes Unidos, Eslovênia, Estônia, Finlândia, França, Itália, Japão, Letônia, Lituânia, Noruega, Nova Zelândia, Holanda, Reino Unido, República Tcheca, Romênia e Suécia. A depender do que acontecer, serão forçados a um conflito que não começaram.

Vale lembrar Trump conseguiu concessões do governo Bolsonaro, prejudicando o aço e o etanol brasileiros, porque era ano eleitoral por lá e ele precisava mostrar serviço em casa.

Essa postura ignorava algo básico: países não têm amigos permanentes, têm interesses permanentes.

O Brasil sempre buscou cultivar uma diplomacia que lhe permitisse dialogar com Washington, Pequim, Bruxelas, Teerã ou quem quer que fosse, mantendo autonomia para dizer "sim" quando convém, "não" quando necessário e para pressionar em nome da autodeterminação dos povos e da primazia do respeito aos direitos humanos. Essa tradição não nasceu de idealismo ingênuo, mas de cálculo. Autonomia amplia espaço de manobra. Quando um país abdica disso para se posicionar como aliado automático, perde justamente o que mais precisa em tempos de crise: liberdade para decidir.

Não se trata de defender neutralidade cínica diante de conflitos incitados por autocratas ocidentais ou violações causados por teocratas orientais. Trata-se de reconhecer que participar de um conflito sem a anuência e a demanda do Conselho de Segurança das Nações Unidas exige uma avaliação fria de custos e benefícios.

E os custos diplomáticos, econômicos e para a própria segurança de indivíduos e empresas brasileiras podem ser enormes ao nos oferecer para sermos alvos. O país poderia se tornar alvo indireto de retaliações, comprometer relações comerciais com parceiros importantes e, no limite, colocar recursos e vidas em um conflito que não nasceu de seus interesses estratégicos.

Tudo isso para provar fidelidade canina, como alguns vizinhos do Brasil se esforçam em fazer.

A ironia é que, em política internacional, vassalagem raramente é recompensada. Soberania, sim.

Por isso, a pergunta que paira sobre aquele período recente da diplomacia brasileira continua pertinente: quando um governo decide que sua política externa será guiada por alinhamentos ideológicos, ele está fortalecendo o país ou apenas reduzindo sua capacidade de escolha?

Porque, no fim das contas, o verdadeiro teste da soberania não é dizer "sim" aos aliados. É poder dizer "não" quando for necessário.

Em tempo: Trump anunciou hoje que negociações com o Irã avançaram e que suspendeu temporariamente ataques a infraestruturas energéticas do país. Vende como se fosse uma vitória dos EUA, mas para alguém que estava dizendo que iria destruir os regime dos aiatolás em poucos dias e, agora, vê a impopularidade doméstica subir, é exatamente o contrário.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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