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Guerra no Irã atinge também a Copa, que enfrenta novos riscos

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01.03.2026

Guerra no Irã atinge também a Copa, que enfrenta novos riscos

O país que vai sediar a próxima Copa do Mundo bombardeia um país que estará na própria Copa. Em pleno ano de Mundial. Claro que que uma Guerra traz diversas consequências, atinge sociedade, economia e, também, o esporte.

A FIFA afirmou que está monitorando de perto a evolução dos eventos no Irã após os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao país. Segundo a agência Reuters, a entidade já estuda a possibilidade de transferir partidas previstas nos Estados Unidos para o México, diante do cenário de instabilidade.O Irã está classificado para o Grupo G, ao lado de Bélgica, Nova Zelândia e Egito.

Mas, de acordo com o jornal espanhol Marca, em função do ataque, a federação iraniana de futebol suspendeu o campeonato nacional e passou a considerar a retirada da seleção da Copa do Mundo, diante da grave crise diplomática e militar instalada na região. O quadro coloca em xeque não apenas a participação iraniana no Mundial, mas também a capacidade institucional da FIFA de gerir um torneio verdadeiramente global em meio a um conflito armado que envolve países anfitriões.

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Claro que num momento de guerra, de vidas perdidas e de sofrimento humano, o esporte evidentemente não é o tema mais importante. Há jornalistas, analistas e especialistas muito mais qualificados tratando da dimensão militar, diplomática, econômica e humanitária do conflito. Mas isso não significa que o futebol esteja imune às suas consequências. E que isso também exige reflexão.

Coerência e memória institucional

Não é a primeira vez que abordo o Irã sob a lente dos direitos humanos. Já escrevi sobre a repressão a mulheres e atletas, sobre o sufocamento de liberdades individuais e sobre o simbolismo do Prêmio Nobel da Paz concedido a uma voz feminina que enfrentou o regime, gesto que funcionou como oxigênio para quem resiste dentro e fora do país.

O esporte, nesse contexto, nunca esteve isolado: atletas foram silenciados, punidos, pressionados. Movimentos por igualdade de gênero e liberdade de expressão enfrentaram respostas duras do Estado. A defesa da dignidade humana não começa nem termina no campo. Ela atravessa fronteiras, regimes e competições.

Agora, o cenário se amplia. Se o conflito ganhar proporções maiores, não será apenas o equilíbrio geopolítico que treme. A Copa do Mundo entra na zona de risco, logístico, diplomático e institucional.

Mais do que isso: entra em jogo a coerência normativa do próprio futebol global.

Neutralidade sob escrutínio

Nos últimos anos, a FIFA afirmou reiteradamente que o futebol não deve se misturar com política. Ao mesmo tempo, tomou decisões que foram inevitavelmente políticas. Após a invasão da Ucrânia, a Rússia foi suspensa das competições internacionais. A justificativa foi a "situação excepcional". A guerra deixou de ser um tema externo e passou a produzir consequências esportivas concretas.

Se conflito armado pode gerar exclusão em um caso, é legítimo perguntar quais critérios orientam a reação institucional em outros.

Neutralidade não é ausência de escolha. É uma escolha que precisa ser juridicamente explicada. E, se aplicada de forma seletiva, compromete a própria legitimidade da instituição.

Por isso, entendo - e já escrevi algumas vezes - que o movimento esportivo precisaria criar um órgão independente para analisar questões de guerras e de direitos humanos, com especialistas no assunto. Quem sabe usar como elemento de análise resoluções da ONU. Importante é criar um caminho que ajude a equilibrar decisões, que apresentem um caminho coerente com os instrumentos que o esporte defende e direitos internacionais, mas de maneira equitativa .

Compromissos formais e não apenas discursos

O artigo 3º do Estatuto da FIFA é explícito: a entidade está comprometida com o respeito a todos os direitos humanos internacionalmente reconhecidos.

Em 2017, a FIFA adotou sua Política de Direitos Humanos, alinhada aos Princípios Orientadores da ONU sobre Empresas e Direitos Humanos. Ali se reconhece o dever de prevenir impactos negativos e agir com responsabilidade em contextos de risco.

A Carta das Nações Unidas estabelece como um de seus propósitos centrais "manter a paz e a segurança internacionais". A Declaração Universal dos Direitos Humanos afirma que o reconhecimento da dignidade humana é fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo.

Quando o futebol afirma promover paz entre os povos, ele se associa a esse arcabouço jurídico internacional.

Esses compromissos não são decorativos. São normativos.

A coerência como teste

O esporte contemporâneo é um ator transnacional, com influência econômica e simbólica. Organiza eventos que mobilizam Estados, forças de segurança e acordos internacionais. Se a guerra se expandir, haverá questionamentos sobre segurança, participação, possíveis boicotes e posicionamentos oficiais.

A pergunta não é ideológica. É institucional: como uma entidade que afirma compromisso com direitos humanos e promoção da paz reage quando seu próprio país-sede está envolvido em ação militar de grande escala?

A Copa do Mundo sempre foi apresentada como espaço de união. Mas união não se sustenta apenas com slogans. Sustenta-se com coerência.

Se a neutralidade já foi relativizada em situações anteriores, ela não pode ser seletiva agora.

Em tempos de guerra, o futebol não é o centro do drama humano. Mas também não está fora dele. E, quando a ordem internacional entra em combustão, os princípios invocados pelo esporte deixam de ser discurso e passam a ser exercício de coerência.

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