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Breve história de uma paixão infantil

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28.02.2026

Breve história de uma paixão infantil

Não sei se já contei a vocês da Beatriz. Era uma menina de olhos redondos, cabelos loiros e escorridos, típica figura por quem um antiquado menino dos anos oitenta se apaixonaria. No caso o apaixonado era eu, mas esse era um tempo anterior ao nervosismo e à timidez, ambos não passávamos dos quatro ou cinco, e assim nos fizemos bons amigos. Ela vinha à minha casa, eu ia à casa dela, na escola sentávamos juntos, entre as árvores do pátio nos perseguíamos. Era uma dessas raras harmonias amorosas com que a vida às vezes nos brinda, quando nos quer bem. E então vieram os terríveis seis, meus pais resolveram encerrar o exílio e voltar à Argentina, e da pequena Beá não pude nem me despedir.

Dois anos depois fui devolvido ao Brasil, agora não mais por coações políticas. Entrei na mesma escola e vivi um grandioso momento de entusiasmo quando a reconheci, a um braço de distância de mim. Beá estava idêntica, e vê-la era como retornar à casa da infância nunca perdida, era como retornar ao corpo franzino que uma vez eu tinha sido. O problema é que os meninos de oito não são tão maduros e eloquentes quanto os de cinco, e então nada consegui dizer naquele dia, e ela também não disse nada. Três anos passamos lado a lado, trocando olhares, cuidados, sorrisos, mas nunca uma palavra, nunca a afirmação inconteste do que ela havia sido para mim, do que ela era ainda.

Os pais são sempre os nossos déspotas, mesmo numa democracia, e os meus então decidiram que eu já não podia ficar ali, vagal demais numa escola concessiva. Passei a um colégio severo, quase hostil, me tornando eu mesmo um adolescente severo e hostil, e só dali a alguns anos fui encontrar de novo a pequena Beatriz, exuberante, crescida. Foi numa festa em estilo bailinho, aos quinze, de audácias alcoólicas proibidas. Ela atravessou a pista com passo firme e veio dizer o que eu tanto esperava, tanto temia. Disse que havia sofrido muito com a minha partida, com as partidas sucessivas. Disse que minha ida à Argentina tinha sido uma de suas dores mais profundas, uma que jamais esquecera. Disse tudo sorrindo, com leveza incompreensível, e se despediu antes que eu alcançasse qualquer resposta além da mudez.

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Na vida adulta os anos são mais turvos, imprecisos. Uma vez nos cruzamos na rua e demoramos a nos reconhecer, tornando fugaz o cumprimento. Uma vez nos vimos num bar e nos bastou um simples aceno. Uma vez ela leu algo que escrevi, ou leu a notícia de algo que eu tinha escrito, e veio declarar por alguma rede que achava bonito que eu fosse escritor, ou que achava inesperado, não sei. Devia lhe parecer estranho que alguém tão carente de palavras escrevesse. Mas eu aproveitei que agora podia elaborar algumas frases em sequência, calculando com minúcia o tom e o sentido, e então fui enfim o menino eloquente que havia sido aos cinco, e brinquei, e me sentei ao lado dela, e a persegui entre as árvores convertidas em papel.

Sua resposta foi mais audaz que a minha, ela sempre foi mais audaz. Convocou para a semana seguinte um encontro dos velhos colegas de 4ªE, conseguiu arrebanhar mais uns seis integrantes e lá estivemos finalmente juntos num bar, sentados à mesma mesa, Beá e eu lado a lado. Por algumas horas fomos todos falantes, descrevemos presentes desinteressantes, exploramos anedotas antigas, a essa altura incertas, inexatas, quase esquecidas. Um a um todos se foram, só sobramos Beá e eu ali, sobre as pedras desiguais da calçada, sob a luz bruxuleante das estrelas, mas então já não havia mais nada a dizer, nada a viver também se estávamos ambos comprometidos e felizes.

Quando as histórias terminam? Quando elas atingem seu desfecho, cumprindo a ubíqua promessa que se insinua desde as suas primeiras linhas? Muito tempo me perguntei a respeito, me perguntei se minha história com Beá tinha chegado a algum fim, a alguma culminação. Se chegou a se cumprir em mínima medida, ou se nunca fizemos jus à amizade ou à paixão constituída um dia, se nunca fomos tão bons quanto aquele menino e aquela menina. E então um dia Beá morreu, de uma razão que nunca entendi bem, seu corpo simplesmente feneceu, e eu nunca mais vi a menina, nem a adolescente, nem a adulta, e ainda agora tento vê-la enquanto escrevo, descrevendo seus olhos redondos, seus cabelos loiros e escorridos.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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