Por que Flávio Bolsonaro decolou no Datafolha?
Por que Flávio Bolsonaro decolou no Datafolha?
A pesquisa do Datafolha divulgada no sábado, que apontou um empate técnico no segundo turno das eleições de 2026 entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, provável candidato à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato ao Planalto pelo PL, expôs um quadro político e eleitoral surpreendente.
Mais do que os números absolutos, que reforçaram a ascensão de Flávio e a tendência de polarização da disputa —já detectadas, em maior ou menor grau, por outras sondagens—, o que chamou a atenção foi o salto de sete pontos que ele deu em relação à pesquisa de dezembro, de 36% para 43%, e o tombo de cinco pontos de Lula, de 51% para 46%.
Ao contrário do que previam muitos analistas e caciques políticos, que viam o filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro como um nome condenado ao fracasso, o levantamento mostrou também que sua candidatura é competitiva e pode representar uma ameaça real para Lula nas urnas.
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Escolhido pelo pai, que está preso e inelegível, para ser seu representante no pleito, em vez do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas —que era o preferido da Faria Lima, das forças de centro e centro-esquerda e até de parte da centro-direita —, Flávio alcançou, em tempo recorde, um protagonismo que parecia improvável apenas algumas semanas atrás.
A grande questão, porém, é o que está por trás dos resultados da pesquisa. O que levou à súbita decolagem de Flávio, apesar de ele ter uma rejeição semelhante a Lula, na faixa de 45% do eleitorado? Por que, de repente, depois de todo o revés sofrido por Bolsonaro e seu grupo político, com acusações de "golpismo" e condenações em série impostas pelo STF (Supremo Tribunal Federal), ele surge como o principal adversário de Lula? O que o resultado do levantamento pode nos ensinar sobre os anseios da população —ou de metade dela— e sobre sua percepção em relação ao atual governo e ao cenário institucional, político e econômico do país?
É cedo para responder a estas perguntas sem correr o risco de ser desmentido pelos fatos mais adiante. Muita água ainda deve rolar até a eleição. Lula pode voltar a subir. Flávio Bolsonaro pode murchar. O candidato da chamada terceira via —seja o governador do Paraná, Ratinho Júnior, o de Goiás, Ronaldo Caiado, ou o do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, todos do PSD— pode decolar como opção à polarização. Até o governador mineiro, Romeu Zema, do Novo, que deve concorrer em raia própria, pode surpreender. Ainda assim, dá para levantar algumas hipóteses plausíveis para explicar a ascensão de Flávio e a queda de Lula.
A primeira delas é o desgaste de Lula e de seu governo. Por mais que o presidente procure se desvencilhar do escândalo do Banco Master e das fraudes do INSS, nas quais seu filho Fábio Luís, o Lulinha, aparece como investigado pela Polícia Federal, a percepção de boa parte do eleitorado é de que a bandalheira que marcou governos anteriores do PT voltou com tudo. Neste cenário desfavorável, o desfile pró-Lula da escola Acadêmicos de Niterói no Carnaval do Rio, que contou com o aporte de recursos públicos, deu ainda mais munição para a oposição detonar o governo, além de abrir espaço para questionamentos sobre a realização de campanha antecipada do presidente.
Muita gente que votou em Lula em 2022 "pela democracia" não deu aval à retomada da agenda retrógrada do PT na economia, que levou o país à sua pior crise em todos os tempos no segundo mandato de Dilma, com uma recessão acumulada de 7% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2015 e 2016.
Embora o presidente e sua claque digam que o maior problema é de comunicação e que seus feitos serão reconhecidos quando forem apresentados sem o "viés negativista" do noticiário, a percepção de boa parte da população é bem diferente, mesmo com o governo gastando bilhões em propaganda oficial.
Apesar das benesses distribuídas às custas dos pagadores de impostos, como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês, o desconto nas contas de luz e a recarga gratuita de gás para as faixas de menor renda, Lula está caindo, e não subindo, nas pesquisas.
O governo se vangloria de ter reduzido a inflação em 2025 ao menor nível em sete anos, mas a sensação é de que falta dinheiro para pagar as contas no fim do mês. E, na verdade, o governo nada tem a ver com o controle da inflação. Com a gastança sem lastro promovida por Lula, que turbina de forma artificial a demanda, as pressões inflacionárias aumentam e não diminuem. Isso obriga o Banco Central a praticar uma política monetária restritiva, jogando os juros na estratosfera, para drenar a liquidez que o próprio governo está injetando na economia. Sem falar que, com a alta das taxas, o crédito ficou caro, o calote explodiu e os investimentos privados patinaram.
Nas estatísticas oficiais, o desemprego está no menor nível da história, mas, segundo estimativas feitas por pesquisadores independentes, a taxa é duas a três vezes maior quando se coloca na conta quem não está trabalhando por desinteresse ou por receber o Bolsa Família e não estar procurando emprego agora.
Fora da economia, a política de segurança do governo, que vitimiza a bandidagem e dá de ombros para suas vítimas, também explica muito da queda de Lula nas pesquisas. O mesmo se pode dizer em relação à política externa, que "passa pano" para ditadores como Nicolás Maduro, da Venezuela, capturado em janeiro numa operação militar americana e hoje preso nos Estados Unidos, e para regimes tirânicos, como a teocracia do Irã.
Embora não seja em geral uma questão relevante nas campanhas eleitorais do país, tudo indica que desta vez, em meio às transformações geopolíticas que estão em curso, a política externa será um dos temas centrais do debate, se agora o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) não censurá-lo, como ocorreu em 2022.
Ao mesmo tempo, a ascensão de Flávio Bolsonaro mostra que metade da população não engole a narrativa propagada pelo consórcio Lula-STF sobre tudo isso que está aí. Como Flávio e líderanças da centro-direita, como Ratinho Júnior, Caiado e Zema, muita gente questiona os abusos do Supremo e a condução dos processos que levaram Bolsonaro e seus aliados mais próximos à prisão, feita à margem dos ritos processuais, dos códigos legais e da Constituição, como apontou o ministro Luiz Fux em seus votos.
Questiona também a imposição de penas exageradas aos envolvidos nos chamados "atos antidemocráticos" de 8 de Janeiro, que, na opinião de muitos juristas, políticos de diferentes correntes ideológicas e analistas, não passou de um quebra-quebra, como tantos outros promovidos pela esquerda no passado recente.
Enquanto Lula entoa o coro "sem anistia" e veta, com apoio de sua tropa de choque, o projeto da dosimetria aprovado pelo Congresso, uma parcela considerável dos brasileiros — que vai muito além da bolha bolsonarista — defende a derrubada do veto presidencial e a anistia aos que chama de "presos políticos".
Para desalento e inconformismo do PT, de seus aliados e até de integrantes do centro e da centro-esquerda, Bolsonaro mantém sua influência política mesmo na prisão. Independentemente do que se pense a seu respeito, não dá para negar que ele é, para o bem ou para o mal, conforme o ponto de vista, uma figura popular, inclusive nas faixas de menor renda, com um apoio estimado entre 20% e 30% do eleitorado. Por mais que os anseios e a representatividade dessa corrente sejam ignorados por muitos analistas e por boa parte da elite econômica e cultural do país.
O sobrenome Bolsonaro ainda tem um peso capaz de levantar uma candidatura como a de Flávio, que é pouco conhecido nacionalmente. E, para completar, Flávio parece ser mais centrado e menos explosivo do que o pai, o que favorece a adesão à sua candidatura de eleitores mais moderados, que repudiam o "radicalismo" de Bolsonaro, mas não aceitam a ideia de o PT ganhar a eleição e Lula ficar mais quatro anos no Planalto. Por esta ótica, Flávio seria uma espécie de "mal menor" contra o lulopetismo.
Mesmo que a escolha do eleitor quase sempre privilegie fatores com impacto direto na sua vida, em especial no seu bolso, como a economia, a segurança pública e a saúde, tudo isso também tem sua importância. Ainda mais quando o que está em jogo são visões de mundo antagônicas, que alimentam uma guerra cultural na qual a conquista de cada trincheira é celebrada como uma batalha épica.
Não dá para menosprezar também o apoio dado a Flávio por uma parcela significativa dos evangélicos, que hoje representam cerca de 30% da população. Pela ligação forte que têm com Israel e pelas boas relações mantidas por Bolsonaro e sua família com país e com o primeiro-ministro israelense, Benjamim Netanyahu, o apoio dos evangélicos pode dar uma contribuição relevante para Flávio no pleito.
Como representante da direita, ele também parece entender melhor do que Lula e o PT o papel que os empreendedores e os trabalhadores por conta própria desempenham hoje no país, em plena era digital. Enquanto o presidente e seu partido continuam a achar que o sonho de todo brasileiro é trabalhar com carteira assinada, é cada vez maior, de acordo com as pesquisas, o número de pessoas que preferem ser donas do próprio destino, mesmo sem o manto protetor da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).
Num momento em que a América Latina, além de outras regiões do mundo, dá uma guinada à direita, depois das experiências traumáticas de governos de esquerda em diversos países, como a Argentina e o Chile, a ascensão de Flávio é um sinal de que o Brasil está incorporando o zeitgeist regional e poderá engrossar a onda.
No fim, é possível que Flávio Bolsonaro desidrate e não seja o adversário de Lula no segundo turno das eleições. Se não for ele, o representante da direita e da centro-direita será Ratinho Júnior, Zema ou Caiado. Qualquer um deles provavelmente terá o apoio de Flávio —como Flávio deverá receber o apoio deles se chegar lá, pelo que eles mesmos já falaram— no embate decisivo contra Lula.
O certo, como mostrou o Datafolha, é que o pleito de 2026 não será a barbada que Lula, o PT e sua militância esperavam até pouco tempo atrás. Goste-se ou odeie-se Bolsonaro, não dá para imaginar hoje a derrota do consórcio PT-STF sem seu apoio e o de seu grupo político, mesmo com ele preso na Papudinha, em Brasília.
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