A machosfera
Você sabia que seu filho pode parecer mais com o ex da sua companheira do que com você? Não? Onde você anda se informando?
Assisti ao documentário, "Por Dentro da Machosfera", de Louis Theroux, que assim como a minissérie Adolescência, me motivou a conversar com vocês sobre esse tema.
Durante 1h30min, Theroux apresenta o cotidiano de alguns dos maiores influenciadores de um nicho milionário, Manosphere, traduzido para o português como Machosfera. Homens que utilizam a misoginia como fonte de renda. Segundo eles, o mundo está tomando um rumo completamente errado, dando direitos demais às mulheres, e feminilizando os homens, cada vez mais sensíveis e delicados.
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A princípio, achei que se tratava de uma piada de tiozão. Os influenciadores entrevistados me lembraram muito o personagem Massaranduba, do "Casseta & Planeta, Urgente!" ou o Zeca Bordoada, personagem do Guilherme Karam, apresentador do Tv Macho, no Tv Pirata, também criado por nós do Casseta. Os esquetes eram um descarado exagero da figura do machão dos anos 90.
Mas o que eu achava impossível aconteceu. Esse "estilo de vida" passou a ser levado a sério. Muito a sério. A impressão que dá é que esses sujeitos tomaram as caricaturas como referência para faturar nas redes como coaches de masculinidade para uma juventude desconectada da realidade, deprimida e cronicamente on-line.
O documentarista inglês, Louis Theroux, sempre com semblante incrédulo, acompanha de perto um pouco da rotina de três personagens centrais. Com agendas recheadas de longas lives com conteúdos que beiram o absurdo, os influencers "ensinam" como o macho alfa deve se comportar para alcançar os valores que realmente importam - corpo musculoso, dinheiro fácil e mulheres submissas.
Mas essa é só a ponta do iceberg. Esse conteúdo serve para cooptar milhões de jovens para grupos privados do Telegram, uma terra sem lei, onde é possível vender serviços on-line de garotas do job, compartilhar conteúdo adulto, link de bets, dicas furadas de finanças e criptomoedas.E o que é pior, muitos jovens seguem à risca essa cartilha. Investem tempo, dinheiro e audiência nesse universo redpill.
O resultado está sendo colhido por aí. Jovens, muitas vezes virgens, que não sabem se relacionar com garotas e tomam qualquer conselho dos influenciadores como verdade absoluta. Esses supostamente decifram a mente feminina com base na lógica mais sem sentido. Segundo eles, as mulheres estão em busca de alguém para obedecer e satisfazer, em troca de uma carona num carro conversível.Podem ser jovens ou adultos infantilizados. Acreditam que o ato sexual deve ser exatamente como vêem em sites pornôs. Atribuem ao feminismo a solidão masculina.
As fake news travestidas de ciência replicadas pelos redpills são tomadas por fatos verídicos. No documentário, um exemplo chocante desse método: o vídeo de um neurocientista afirma que mulheres sexualmente ativas retêm o DNA de todos os seus parceiros. Não para por aí. Esse "acúmulo" de DNA poderia gerar traços físicos de um ex-parceiro ao invés de características genéticas do genitor da criança. Uma pessoa razoável duvida que alguém possa levar essa teoria a sério.
Como o algoritmo vai se moldando ao consumo dos usuários, em pouco tempo, o jovem passa a receber apenas esse tipo de conteúdo. E aceita como verdade que existe mulher pra namorar e mulher pra casar. O homem deve ser o provedor da casa, enquanto a mulher está ali para servir ao seu amo.
Curiosamente, essa submissão vem acompanhada de monogamia de mão única. Os homens entrevistados defendem esse estilo de vida com naturalidade. O macho alpha pode ter quantos casos quiser, enquanto a mulher fica em casa cuidando do lar.
No Brasil, esse movimento já tem um ecossistema muito bem definido. Disseminam a supremacia masculina, criam capital político através do pânico moral travestido de religiosidade. Pasteurizam o ideal de mulher que, segundo eles, deve ser "bela, recatada e do lar". E se revoltam com aquelas que não aceitam viver no século XIX.
Relatórios recentes apontam que o movimento redpill tem contribuído para o aumento da violência contra a mulher, especialmente por naturalizar a misoginia, normalizar o ódio e promover comportamentos abusivos no ambiente digital.
Violentos feminicídios são cometidos pelo simples fato de a companheira não se submeter à lógica irracional do parceiro. É comum relatos de mulheres assassinadas porque o homem não aceitou o fim do relacionamento. Ou às vezes pela mera desconfiança de que ela o estava traindo.
A situação se torna mais grave quando vemos lideranças políticas no mundo inteiro propagando esse tipo de comportamento. Donald Trump, o homem mais poderoso do planeta, não só pensa dessa forma, como está envolvido até o último fio de cabelo laranja nos encontros criminosos do pedófilo Jeffrey Epstein.
Essa conversa poderia durar horas. Mas eu tenho que ficar por aqui. Tá na minha hora de lavar a louça.
Mas deixa aí sua opinião, que depois de passar a roupa, eu vou ler.
Em caso de violência, denuncie
Denúncias podem ser feitas pelo telefone 180, da Central de Atendimento à Mulher, que funciona 24 horas por dia, inclusive no exterior. A ligação é gratuita.
O serviço recebe denúncias, oferece orientação especializada e encaminha vítimas para serviços de proteção e atendimento psicológico.
Também é possível entrar em contato pelo WhatsApp (61) 99656-5008.
As denúncias também podem ser feitas pelo Disque 100, canal voltado a violações de direitos humanos.
Há ainda o aplicativo Direitos Humanos Brasil e a página da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH).
Caso esteja em situação de risco, a vítima pode solicitar medidas protetivas de urgência, previstas na Lei Maria da Penha.
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