República da chantagem: STF cobra um alto preço para defender a democracia
República da chantagem: STF cobra um alto preço para defender a democracia
Na última sexta-feira (6), Fernando Gabeira causou comoção nas redes sociais ao dizer, na GloboNews, que nós, analistas, temos excesso de cuidado ao comentar as complicadas denúncias que envolvem Alexandre de Moraes. Ele sugeriu que o ministro era "funcionário" de Daniel Vorcaro e completou: "a essa altura do campeonato, o Supremo devia acabar".
Entendo a indignação de um dos ícones do jornalismo brasileiro e suas declarações, ditas no calor das novas revelações da imprensa sobre conversas privadas do ex-banqueiro com o marido de Viviane Barci de Moraes, sócia do escritório contratado por estonteantes R$ 129 milhões pelo Master. O ministro, registre-se, negou ter conversado com Vorcaro em 17 de novembro de 2025 —data em que o empresário foi preso pela primeira vez.
A revolta de Gabeira, um homem cordial e gentil que tive a honra de entrevistar em 2018 (está no YouTube, se você quiser conferir), é um sintoma do cansaço do Brasil com o que eu chamo de "república da chantagem".
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Ela funciona num pacto que não foi negociado ou escrito, pairando como uma nuvem, implícito na Constituição de 1988 e inserido sem aviso prévio nas práticas e costumes do poder.
Um pacto para o qual, até onde sei, o cidadão brasileiro não foi consultado e com o qual, claro, nunca consentiu. Se ele vier um dia a ser chamado a opinar, tenho minhas dúvidas se o brasileiro topará o acordo, ao menos como está.
A mais alta corte do País se diz "defensora da democracia" e, inegavelmente, o foi em muitos episódios importantes da história, incluindo a recente tentativa de golpe de Estado. Mas essa conta tem um preço implícito: poderes quase ilimitados, censura e intimidação dos críticos, decisões monocráticas em série, julgamentos que envolvem escritórios com parentes de ministros que não se declaram impedidos, papel de moderador e supervisor dos outros Poderes.
Nada disso é dito ou praticado nestes termos, evidentemente, mas quem acredita que não ocorre na prática? Quem dirá que não é um tipo dissimulado de chantagem, que cobra um preço pela alegada "defesa da democracia"?
Não estou aqui fazendo coro com golpistas e seus satélites que desdenham do papel do Supremo em momentos decisivos como a pandemia ou a penalização dos articuladores do golpe, mas esse é seu papel constitucional e não é, na prática, nada além da obrigação.
Seja o que for que o STF tenha feito que mereça aplausos não pode ser visto como um salvo-conduto para cobrar essa conta do país para sempre, para além do papel que cabe à corte. Ou uma desculpa para classificar qualquer crítica a um ministro específico como "um ataque" ao Supremo.
O país não quer e não precisa de um STF que, para cumprir suas funções legais, não aceite sequer um código de conduta ou que, como lembrou Gabeira, deixe um clima persecutório no ar em que todo crítico pense dez vezes antes de se pronunciar.
Quem não sentiu um desconforto, para dizer o mínimo, quando Kléber Cabral, presidente da Unafisco (Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal), por determinação de Alexandre de Moraes, foi intimado pela Polícia Federal a depor como investigado depois de entrevistas em que criticou uma operação autorizada pelo ministro e disse que "é menos arriscado fiscalizar membros do PCC do que altas autoridades da República"?
O clima de chantagem, diga-se, não pode ser exclusivamente atribuído ao Supremo. Todo o Judiciário, outro defensor da democracia, parece atrelar seus deveres a salários, proteções, vantagens e penduricalhos que, num país pobre como o Brasil, são vistos como obscenos pela população.
Há chantagem para todo lado, a lista não tem fim.
Empresários que defendem a democracia, mas querem regulações, proteções, juros subsidiados e contratos com o Estado.
Congressistas que defendem a democracia, mas querem bilhões em emendas sem o devido controle.
Partidos que defendem a democracia, mas querem fundões indefensáveis para engordar o caixa.
Sindicalistas que defendem a democracia, mas querem intervir diretamente e arbitrar relações trabalhistas, mesmo que causem desemprego e queda de produtividade.
Banqueiros que defendem a democracia, mas querem o fim das fintechs e um mercado preso ao passado.
O Brasil não precisa apenas de defensores, mas quem defenda pelos motivos certos e pelo bem do país, não cobrando um preço impagável, que tira o mérito da própria defesa que dizem fazer.
O patriotismo é, como disse Edmund Burke, o pacto das gerações que já passaram com as atuais e futuras. É difícil, parece impossível, mas não custa tentar. A alternativa é muito pior.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
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Julio Candal Rodrigues
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