Matámos o tédio
Se o leitor tem mais de trinta anos, lembra-se certamente de uma espécie hoje extinta: a pessoa que esperava.
Podia ser vista nas paragens de autocarro, nos consultórios dos dentistas ou nas filas das finanças. Era alguém que não fazia absolutamente nada. Olhava para os sapatos, estudava as rachas das paredes ou observava o tique nervoso do senhor ao lado. Estava, no sentido mais puro da palavra, a murchar de tédio.
Hoje, essa espécie desapareceu. Foi substituída pela pessoa curvada, o pescoço num ângulo de quarenta e cinco graus, o polegar num scroll frenético e infinito, consumindo vídeos de dez segundos sobre cães que andam de skate ou receitas de bolos que nunca vai cozinhar.
Declarámos uma guerra ao tédio. Olhámos para aqueles minutos de vazio na paragem do autocarro como um desperdício de produtividade e uma falha no sistema que precisava de ser corrigida. E a tecnologia entregou-nos o bisturi perfeito: o smartphone.
O argumento não é contra os smartphones. Seria absurdo. Poucas........
