Montenegro precisa de vitaminas
Um Governo em baixo de forma. Pancada n.º 1: a derrota copiosa nas eleições presidenciais de Luís Marques Mendes, apoiado pela AD. Pancada n.º 2: a péssima reação inicial do Governo à calamidade provocada pelo mau tempo. Pancada n.º 3: o lento enterro da reforma da legislação laboral, que acabará tão desfigurada que será ou outra coisa ou coisa nenhuma. Foi assim que a luz áurea com que Luís Montenegro terminara 2025, galvanizado por umas eleições autárquicas vitoriosas, se apagou no início deste 2026. Bastou ouvir a sua intervenção de abertura do debate parlamentar desta quinta-feira: tíbio, hesitante, desinspirado, desiluminado.
Um Governo sem plataforma.
O quinto lugar de Marques Mendes nas presidenciais não é facto que se extinga na noite eleitoral. Porque, na mesma campanha, André Ventura rasgou subitamente o apoio presumido às leis laborais; e, na mesma eleição, o líder da oposição ficou em segundo lugar e cresceu. A campanha foi, portanto, uma viagem ao futuro político do Governo: não poderá contar com o apoio do Chega para nada que ponha em causa a popularidade… do Chega. Baixar impostos é fácil, reformar é difícil, provoca descontentamentos. Já sobre a esquerda, Montenegro parece estar com excesso de confiança. Mas governar não é só negociar viabilizações do Orçamento do Estado. E mesmo essas não terão o apoio do PS sempre. Nem para sempre. Qual é então a plataforma política para governar?
Um Governo que não transforma. Desmoralizado pelo fracasso imprevisto da reforma da legislação laboral, que contava com a aprovação do Chega, o Governo perdeu ímpeto. E sem plataforma política ativada, à esquerda e à direita, não há espaço para reformas. Este é o maior risco do Governo de Montenegro agora: não o de aguentar ou não três anos e meio, mas de independentemente de durar ou não, não servir para nada. Só para a gestão de mercearia.
Um Governo que não se conforma.
Ao contrário de António Costa, que nunca quis propriamente mudar o que quer que fosse, Luís Montenegro parece querer. O ‘deixa o Luís trabalhar’ é isso, uma promessa de ação e de transformação. Mas, quase dois anos depois da primeira eleição, e tirando a descida de impostos, o Governo só concluiu uma reforma, a da imigração. Montenegro não se conforma com isso, quer mais. Mas sabe mesmo o que quer? E sabe como fazer? E conseguirá reunir condições políticas? É difícil. E é necessário.
Um Governo que não forma nem se reforma.
Esta é a chave que Luís Montenegro precisa agora de forjar para abrir a porta fechada: o seu próprio Governo. Ou dá um choque de eletricidade ao Conselho de Ministros, para ativar de novo a circulação da governação, ou dá umas chicotadas psicológicas e, em vez de se limitar a trocar da Administração Interna, faz uma reformulação profunda do Governo que lhe dê uma nova vida, vitamina e vitalidade. E, já agora, que resista à tentação habitual de achar que todos os problemas são questões de comunicação. Se não resolver este nó na sua própria garganta, o Governo não vai durar nem dourar: acabará como estrutura pró-forma, que ora informa ora desinforma. Inevitavelmente, acabará na reforma.
