Bombas nas bombas de gasolina
Donald Trump disse esta semana que já não quer o nobel da Paz. Também pode já dizer que não quer o nobel da Economia. Num caso como noutro, poupa-se à farsa e ao ridículo. Mas não poupa os cidadãos às consequências dos seus impulsos.
Embora já tenha expressado 221.740.938.724 opiniões diferentes em duas semanas, o Presidente dos EUA tem sugerido que a operação será (ou seria) rápida, sem tropas terrestres, e tudo sugere que decidiu (e que vai decidindo) por impulso. O impulso, aliás, terá sido israelita, que tem objetivos mais antigos, mais precisos e mais ambiciosos.
Perante a escalada dos combustíveis, Trump começou por dizer que a guerra está «completa»; depois disse que os custos suportados pelos americanos hoje serão compensados pelo desmantelamento do regime iraniano; mais tarde acrescentou que os Estados Unidos estão a lucrar pipas de dólares com os barris que produzem.
São formas efémeras de lidar com um imprevisto - e o imprevisto é a indefinição no conflito no Médio Oriente e os aumentos dos preços domésticos: é uma dupla traição à sua base eleitoral, tanto a guerra como a inflação.
Mas este texto não é sobre o que se passa lá, é sobre a nossa paróquia. Sobre os impactos do aumento dos produtos petrolíferos e o que se lhe segue. A guerra é um fenómeno muito complexo, mas fazer este cenário é bastante simples: se o conflito se prolongar, se as instalações petrolíferas na região continuarem a ser bombardeadas e se o Estreito de Ormuz permanecer sem condições de segurança, gasta-se o tempo que a mobilização das reservas internacionais de petróleo pretende ganhar.
Já vimos este filme em 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia. Então, os combustíveis sobem. Então, a inflação sobe. Então, os juros sobem. E se tudo sobe menos o poder de compra, a economia quebra.
Imagine um casal da classe média, ganha cada um deles o salário médio, anda de automóvel, paga um crédito à habitação, come quase sempre em casa, faz umas férias por ano. É uma situação normal. Mas nesta situação normal, só a ligeira subida da Euribor das duas últimas semanas e o encarecimento dos combustíveis subtrai ao fim de um ano o equivalente a um subsídio de férias.
Não ouviremos com certeza Luís Montenegro dizer que os custos suportados pelos portugueses hoje serão compensados pelo desmantelamento do regime iraniano. Mas ouviremos provavelmente o primeiro-ministro dizer que as crises inesperadas (a criada pelo mau tempo na zona Centro e a internacional no petróleo) deram cabo das contas do Governo.
Talvez o enorme sucesso militar da operação dos Estados Unidos na Venezuela tenha deslumbrado Donald Trump, que é mais temerário do que intrépido. Ao contrário do que diz, ele não acabou com oito guerras antes nem obliterou o regime iraniano agora. A solução não será rápida. Nem é indolor. Para todos nós.
