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A vertigem do poder ou quando quem manda não é, afinal, controlado

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28.10.2026

Há uma ideia relativamente confortável sobre a fraude e que basicamente nos diz que a mesma resulta, essencialmente, da existência de pessoas desonestas que, aproveitando uma oportunidade, decidem violar as regras. A prevenção consistiria, nesta perspetiva, em procurar identificar comportamentos suspeitos, reforçar procedimentos e, se e quando necessário, sancionar os respetivos responsáveis.

A realidade nada tem de linear e é, como procuraremos demonstrar, consideravelmente mais complexa.

O mais recente relatório da ACFE prova isso mesmo, revelando uma realidade incómoda que muitos sabem existir e que teimam, ainda assim, em ignorar. Basicamente, a ideia que devemos ter em mente é a de que quanto maior o poder dentro de uma organização, maiores poderão ser os danos provocados pela prática de fraudes no interior dessas mesmas organizações.

Assim, não tenhamos quaisquer dúvidas de que quando os controlos falham ou são ultrapassados por quem tem autoridade para os contornar, a integridade deixa de depender das regras e passa a depender, sobretudo, da vontade de quem decide e de quem na prática detém o poder. O Occupational Fraud 2026: A Report to the Nations, recentemente publicado pela Association of Certified Fraud Examiners (ACFE), constitui um contributo particularmente relevante para compreender essa complexidade.

Na sua 14.ª edição, assinalando três décadas de investigação sobre a fraude ocupacional, o relatório analisa 2402 casos investigados em 143 países e territórios, envolvendo perdas superiores a 3400 milhões de dólares. A perda mediana, por caso, segundo se alcança de uma leitura mais atenta do documento, ascendeu a 104 mil dólares ao passo que a perda média ultrapassou 1,4 milhões de dólares. Uma diferença que traz à superfície visível a existência de fraudes com consequências financeiras particularmente elevadas e que recomenda, nessa exata medida, alguma prudência perante leituras ancoradas, exclusivamente, em valores médios.

Apesar do interesse que este tópico possa até assumir na economia e conclusões do relatório, o dado ainda assim mais intrigante e interessante não é, necessariamente, o

montante das perdas registadas, antes o que o relatório nos diz sobre a relação entre fraude, poder e controlo (ou pelo menos quem o detém e o exerce, com efetividade).

Neste enquadramento, o relatório revela que as fraudes praticadas por proprietários e dirigentes de topo apresentam perdas medianas 9,5 vezes superiores às associadas a fraudes cometidas por trabalhadores, ou seja, 475 mil dólares contra 50 mil dólares.

O significado institucional desta diferença merece, em nosso entender, uma cuidada reflexão, pois o que se percebe de imediato é que quanto maior é a autoridade de um responsável no interior de uma........

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