A IA pode devolver-nos os médicos e os enfermeiros
Durante décadas, organizámos os hospitais acrescentando tarefas às profissões. Sempre que surgiu uma nova necessidade, um novo indicador, uma nova norma ou um novo sistema informático, alguém passou a ter mais um formulário para preencher, mais um campo para validar, mais um registo para fazer e mais um circuito para cumprir. O resultado está à vista: temos alguns dos profissionais mais qualificados e mais diferenciados do sistema de saúde a dedicar uma parte significativa do seu tempo a atividades que pouco ou nada dependem das competências pelas quais passaram anos a formar-se.
Médicos transcrevem informação, procuram resultados dispersos, repetem prescrições, produzem declarações e passam horas a alimentar sistemas informáticos. Enfermeiros acumulam registos, verificações, questionários, tarefas administrativas e rotinas protocolizadas que os afastam do doente. Gestores e administrativos telefonam para descobrir camas, localizar equipamentos, remarcar exames, reconstruir percursos e resolver manualmente problemas que o próprio hospital já deveria conseguir antecipar. Criámos profissionais altamente diferenciados e, demasiadas vezes, organizámos o seu trabalho como se fossem processadores humanos de informação.
A Inteligência Artificial pode mudar isto. Mas só produzirá uma verdadeira revolução se resistirmos à tentação de a utilizar para fazer exatamente a mesma Medicina, um pouco mais depressa.
A grande oportunidade da IA não é automatizar o hospital atual. É permitir-nos desenhar outro hospital.
A pergunta que deveríamos fazer já não é: “Que profissões pode a Inteligência Artificial substituir?” É outra: “Que tarefas justificam verdadeiramente ocupar tempo humano?”
Esta mudança de perspetiva é decisiva. Uma profissão não é uma soma de tarefas. Muitas das tarefas que hoje parecem inseparáveis de determinada profissão resultam apenas da forma como fomos organizando os serviços de saúde. A IA dá-nos a oportunidade de voltar ao essencial: identificar o que cada profissão tem de único e libertá-la do trabalho que pode ser automatizado.
No caso do médico, por exemplo, escrever uma história clínica, procurar informação numa guideline, transcrever resultados, pedir um conjunto padronizado de exames ou preencher uma nota de alta são tarefas importantes. Mas não constituem, por si só, a essência da Medicina. Uma parte crescente desse trabalho poderá ser preparada por sistemas de IA. A competência essencial do médico está noutro lugar: decidir.
Decidir quando a informação é incompleta. Integrar dados contraditórios. Perceber que o doente que está à nossa frente não é exatamente igual ao doente descrito num protocolo ou num ensaio clínico. Escolher entre alternativas com diferentes probabilidades de benefício e de risco. Saber quando tratar — e quando não tratar. Reconhecer a exceção. Estabelecer prioridades. Comunicar incerteza. Partilhar uma decisão difícil com o doente e com a família. E, sobretudo, assumir a responsabilidade pela decisão tomada.
A IA pode calcular probabilidades, consultar em segundos milhares de artigos, integrar resultados laboratoriais, imagens, antecedentes e medicação, identificar interações, produzir diagnósticos diferenciais e sugerir alternativas terapêuticas. Deve fazê-lo. Não faz sentido que um médico desperdice tempo a procurar informação que uma máquina consegue reunir em segundos. Mas existe uma diferença fundamental entre propor uma........
