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Angústia à distância: o impacto psicológico da guerra dentro de nós

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25.03.2026

Enquanto um líder mundial, como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirma publicamente estar em negociações com o Irão — algo que o governo iraniano, para já, nega — as consequências de um conflito que dura há cerca de um mês continuam a repercutir-se globalmente. Para além da resposta iraniana, com ataques dirigidos a Israel e a estados árabes no Golfo Pérsico e com impacto também no Líbano, assistimos a um aumento do custo de vida e a um somatório de perdas humanas e materiais que dificilmente nos deixam indiferentes, mesmo à distância.

Na verdade, é difícil e natural, para a maioria de nós, não nos sentirmos perturbados perante cenários de guerra, ainda que estas ocorram a milhares de quilómetros. A distância geográfica não impede o impacto emocional. Por vezes, podem surgir várias emoções difíceis de nomear e compreender. Sabemos que contextos de guerra afetam profundamente a saúde psicológica e o bem-estar coletivo, enquanto colocam em causa a perceção de segurança, estabilidade e autodeterminação.

No entanto, é crucial reconhecer que nem todas as pessoas reagem da mesma forma a acontecimentos potencialmente perturbadores. Ainda assim, podem existir emoções e experiências comuns: medo, ansiedade, frustração, zanga, irritabilidade ou um sentimento de impotência, dificuldades de concentração, maior indecisão, sensação de sobrecarga emocional e receios em relação ao futuro.

Estas reações têm processos psicológicos subjacentes. A empatia impulsiona-nos a sentir a dor e a injustiça vividas por outros seres humanos. A exposição constante a notícias — especialmente em ciclos contínuos e intensos — pode amplificar esse impacto e gerar saturação emocional. Estar informado é importante, mas encontrar um equilíbrio é essencial. O cérebro humano procura sentido e fecho — e não um fluxo interminável de informação. Por isso, limitar o consumo excessivo ou mesmo compulsivo de notícias trágicas e pessimistas, o chamado doomscrolling, e privilegiar fontes de informação credíveis são também passos importantes para proteger a saúde mental. Outro, passa por nos focarmos naquilo que está dentro da nossa esfera de controlo. A imprevisibilidade dos acontecimentos pode, em alguns casos, despertar medos mais profundos ligados à sobrevivência.

Se é verdade que os media nos oferecem a realidade do que está a acontecer, também é verdade que nos oferecem o que poderá ou se estima poder acontecer. Isto implica distinguir entre factos e cenários antecipados — muitas vezes catastróficos — que aumentam a ansiedade, sem acrescentar clareza ou capacidade de ação.

Num contexto marcado pela perda de previsibilidade, pelas mudanças constantes e pela sensação de falta de controlo — tanto sobre a nossa vida como sobre o mundo — é natural que os sentimentos de incerteza se intensifiquem. Este desgaste emocional pode aumentar a sensação de vulnerabilidade e afetar o nosso bem-estar psicológico.

Ainda assim, existem caminhos possíveis para complementar o que podem ser estratégias de regulação emocional. Podemos adaptar-nos, contribuir dentro das nossas possibilidades e aprender a regular os nossos pensamentos e emoções.

Falar sobre o que sentimos com pessoas de confiança, manter rotinas de autocuidado consistentes — como um padrão de sono adequado, alimentação equilibrada, prática de exercício físico — fazer pausas conscientes sem culpa, reservar espaço para momentos de prazer e lazer e dosear o consumo de informação são estratégias fundamentais para lidar com períodos de maior desconforto emocional.

Perante isto, surge uma questão importante: como transformar quadros de maior angústia em ação?

Embora não esteja ao nosso alcance resolver conflitos geopolíticos, podemos decidir como nos relacionamos com aquilo que sentimos. Podemos reorganizar a energia emocional gerada por estes acontecimentos de forma mais consciente. Ou seja, não podemos controlar o que acontece no mundo, mas podemos escolher como respondemos ao que no mundo acontece. Como a escritora Yiyun Li intitula uma das suas obras, “Tudo na natureza apenas continua”.

Esta escolha não implica indiferença ou ausência de empatia. Antes se traduz na capacidade de escolher proteger a saúde mental de cada um, mantendo um equilíbrio saudável entre estar informado e os limites necessários que previnam a sobrecarga emocional.

E há algo que não deve ser esquecido e não menos importante: a esperança, que como nos diz Ernst Bloch é uma categoria fundamental do ser humano, um motor para a ação e transformação do futuro. Apesar da destruição que a guerra traz, paradoxalmente também pode despertar o melhor do ser humano. Gestos de solidariedade, compaixão, entreajuda e defesa da dignidade humana tornam-se mais visíveis. Reforça-se a importância da liberdade, dos direitos humanos e do respeito pela diversidade.

Talvez, nestes momentos, se torne mais clara a forma como estamos todos interligados — e a importância de refletirmos sobre o valor da vida, das relações e do sentido que lhe queremos atribuir.

Não podemos parar o mundo, mas podemos cuidar da forma como vive dentro de nós.

Psicóloga Clínica e da Saúde


© SOL