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30 anos dos Young Lions: o que falta para reter talento em Portugal?

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24.02.2026

André Sousa Moreira, sócio e diretor criativo da agência Cooprativa

Há cinco anos, nas comemorações dos 25 anos dos Young Lions em Portugal, tendo sido Young Lion para representar Portugal em Cannes em 2013 e 2015, fui convidado a participar numa conversa sobre um tema que sempre defendi: reter talento em Portugal. E hoje, talvez com ainda mais convicção, porque não é um problema de discurso, é um problema de prática.

Em palco estavam vários colegas que admiro: Mariana Reis e Teresa Pinho, Márcio Martins e Diogo Vasques. Percursos internacionais, realidades muito diferentes, mas uma inquietação comum: perceber por que continuamos a formar talento para o ver partir e o que falhamos em criar para que ele fique.

Desde o início ficou claro algo com que sempre concordei e defendo numa fase inicial e de crescimento: o salário raramente é a única razão para sair. Como sublinhei, o que pesa verdadeiramente é a oportunidade de aprender, de trabalhar com outras culturas, de criar ideias com ambição global. E sempre acreditei que, quando alguém sente que está a evoluir, a ser desafiado e acompanhado, o dinheiro deixa de ser o primeiro motivo para fazer as malas, porque essa não é a primeira prioridade, convenhamos, embora nunca deva ser ignorado.

A perspetiva do Diogo na altura sobre um mercado cada vez mais global e distribuído veio reforçar algo que já defendia: a geografia deixou de ser desculpa. Hoje trabalha-se para o mundo a partir de qualquer lugar. Portugal pode (e deve) ser competitivo, não por ser barato ou confortável, mas por ser estimulante, exigente e relevante para quem quer crescer.

Mas a conversa ganhou verdadeiro peso quando se entrou no território mais desconfortável. A pergunta lançada pelo Márcio, “querem mesmo as agências reter talento?”, tocou num ponto que sempre considerei central. Porque reter talento implica decisões difíceis: investir tempo quando não há tempo, formar quando o retorno ainda não é visível, confiar antes da prova dada. E nem todas as estruturas estão dispostas a fazê-lo.

É aqui que a visão da Teresa e da Mariana se cruza diretamente com algo fundamental: talento não se revela apenas depois dos prémios. Revela-se no potencial, na curiosidade, no erro. Sempre acreditei que o papel das lideranças passa menos por controlar e mais por acompanhar, por criar espaço, por estar presente. A falta de mentoria, a invisibilidade dos mais novos e a lógica de substituição rápida são, para mim, algumas das maiores falhas do nosso mercado.

Reter talento é, acima de tudo, uma questão de cultura, de atenção, de tempo. Às vezes não é um plano de carreira complexo, é uma conversa honesta. Não é uma promessa vazia, é um desafio concreto. Não é um discurso bonito, é consistência no dia a dia.

Agora que os Young Lions Portugal celebram 30 anos, olho para essa conversa como algo que não ficou resolvido, ficou lançado. As perguntas continuam as mesmas, mas o contexto tornou-as ainda mais urgentes. O talento português continua a ser reconhecido lá fora. A diferença está em saber se queremos ser apenas um ponto de passagem ou um lugar onde vale a pena construir percurso.

E é aqui que o papel dos Young Lions se torna absolutamente central. Mais do que uma competição, sempre foram (e continuam a ser) uma plataforma de projeção do talento português para o mundo, um espaço onde se identifica potencial, se acelera crescimento e se dá visibilidade internacional a uma nova geração de criativos. Não é por acaso que Portugal se afirma hoje como o 3.º país do mundo no ranking de jovem talento naquela que é a maior competição mundial de criatividade.

Esse reconhecimento não acontece por sorte, acontece porque existe trabalho, (muito) talento e porque existem contextos que o sabem revelar. Para mim, os Young Lions sempre foram sobre potencial e responsabilidade. Celebrar 30 anos não é apenas celebrar talento jovem, é assumir que temos de fazer melhor enquanto mercado. Porque talento não falta. O que continua a fazer toda a diferença é aquilo que escolhemos fazer com ele todos os dias, as oportunidades e abertura que damos para errar e aprender dentro das nossas equipas, depois dos prémios, depois dos palcos, quando já não há holofotes.


© Sapo