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O labirinto das urgências: entre a fotografia do caos e a coragem de reformar

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29.01.2026

Nos últimos dias, uma fotografia circulou nas redes sociais: uma doente deitada no chão de uma urgência hospitalar, acompanhada pelo filho, por falta de macas. Não sei se a imagem é verdadeira - e, na verdade, pouco importa. A verossimilhança já basta para nos inquietar.

Ao fundo, outro doente repousa numa maca dos bombeiros, acompanhado pela tripulação e por uma funcionária. Entre estes dois quadros, forma-se uma espécie de clareira: pessoas que passam, olham e seguem. Um “espetáculo” involuntário, registado pelo smartphone, provavelmente sem consentimento, como se a vida do outro fosse apenas mais um conteúdo a partilhar.

Esta imagem põe-nos diante de três questões: a ética da exposição, a aparente novidade do caos nas urgências e, acima de tudo, o futuro que estamos a construir - ou a adiar - para o nosso sistema de saúde.

Solidão: o primeiro sinal de falência

A fotografia revela algo mais profundo do que a inexistência de uma maca: revela solidão. Um filho sozinho ao lado da mãe, sem apoio, sem enquadramento, sem uma mão institucional que a ampare. A mãe, deitada no chão do serviço público, sofre numa situação que, segundo relatos, seria paliativa.

Este é o primeiro fracasso. Um doente em cuidados paliativos nunca deveria chegar a uma urgência - um espaço de ruído, luz agressiva e pressa, a antítese da dignidade. Quando isso acontece, não é um acidente: é uma falha estrutural.

E distorce o debate sobre a própria Vida. Como falar em “escolha livre” pela morte quando o Estado não oferece alternativas consistentes de alívio do sofrimento? Num sistema que nega cuidados paliativos, a eutanásia pode deixar de ser um ato de autonomia e tornar-se uma solução de gestão - eficiente, discreta e conveniente para quem falhou em cuidar.

O caos não é novo: é crónico

Os serviços de urgência surgiram no pós-II Guerra Mundial como resposta essencial a um período de melhoria das condições de vida. Com o........

© Sapo