Vitória até à derrota final
Há guerras que são travadas para não serem vencidas. Seja porque os objetivos são ambíguos e não se consegue definir o que é uma vitória militar ou relevá-la, como explicava Carl von Clausewitz, ou porque o custo transcende o investimento que é feito – em vidas, dinheiro, ativos –, ou, ainda, porque se torna um combate impossível, pela sua natureza, como defende Mao Tsé-Tung, não no “Livro Vermelho”, mas em “On Guerrilla Warfare”. A investida norte-americana no Irão faz o pleno.
A narrativa sobre os motivos do conflito e os objetivos que os EUA se propõem alcançar têm mudado sistematicamente, à procura de um ângulo mais aceitável, como um ator frente à câmara. Foi a eliminação da capacidade nuclear iraniana, porque seria um perigo iminente, apesar de já ter sido “obliterada” no ano passado. Avançou para a destruição da capacidade de fabrico e de lançamento de mísseis balísticos, depois para dizimar a força aérea e a marinha, forças que Donald Trump garante terem sido destruídas a 100%, ainda que consigam encerrar o Estreito de Ormuz. A seguir, a rendição incondicional e a mudança de um regime que subsiste, apesar de o considerarem derrotado.
Cada dia de guerra custa entre 800 milhões e 1,8 mil milhões de euros. Os primeiros dias, mais intensos, foram mais caros. Ter forças no terreno também será custoso, até porque estamos a falar de um país com 90 milhões de pessoas e 1,6 milhões de quilómetros quadrados, uma área superior à da Península Ibérica, França e Alemanha juntas. O Pentágono já pediu mais 200 mil milhões de dólares (cerca de 172 mil milhões de euros) para fazer a guerra, que está terminada, mas parece continuar. E nestas contas nem está o mundo, que assiste ao apertar do garrote energético e industrial sem intervenção.
No final, será cantada vitória e ninguém sairá derrotado, porque perdemos todos.
