Os galácticos
O Conselho Consultivo do Banco de Fomento é aquilo que em tempos se chamava “pedrada no charco”. Juntar debaixo do teto da mesma sala — com o mesmo propósito — o grupo de empresários, gestores e banqueiros que Gonçalo Regalado convenceu a trabalhar com ele — tudo pessoas que não precisam de legenda, como Fernando Ulrich e Nuno Amado — é uma extraordinária prova de vida da instituição financeira em tempos conhecida como banco de tormento, tal a desesperante burocracia que definia a mais simples das decisões. O medo de agir era aquilo que caraterizava o BPF há menos de dois anos. O imobilismo era o traço de gestão mais forte, terraplanando qualquer gesto ou suspiro que indicasse algum tipo de movimento ou desejo de ação.
Esses tempos medievais desapareceram numa penada. Um par de meses sob a gestão de Regalado bastaram para uma mudança de 180 graus. As resistências internas que existiam foram vencidas e o banco no seu todo entusiasmou-se com a inquietação súbita. Potenciais clientes, já havia antes, mas sem a confiança do governo para agir, a aprovação de linhas raramente chagava à meta, falecendo de velhice nas mesas dos funcionários. Os empresários queixavam-se em circuito fechado, é verdade, mas como o país nunca tivera uma instituição assim… na verdade, era como se o Banco de Fomento não existisse, fosse apenas um holograma inventado por razões políticas — no fundo, para dizer que Portugal também tinha uma instituição assim. Gonçalo Regalado, que vinha de uma experiência frutuosa no BCP, começou por equipar o BPF com as diferentes áreas que permitem uma sólida tomada de decisões dentro de um banco. Estes diferentes patamares de análise de risco, recolha de informação e contactos com o mercado, apesar da sua absoluta banalidade, incrivelmente não existiam, tornando o afunilamento dos processos uma inevitabilidade.
Agora que o muro foi derrubado e a estrutura atualizada, a chegada do Conselho Consultivo traduz o novo patamar de exigência: não basta aprovar linhas e fazer números, é preciso assegurar que as garantias públicas são apenas dadas a quem as pode realmente usar e cobrir. O dinheiro que está sobre a mesa é de todos os contribuintes, logo tem de ser gerido com a prudência necessária. Os conselheiros terão o papel de observar o que está a acontecer, identificar problemas e assegurar que os diferentes setores económicos nacionais (indústria, turismo, agricultura, empresas de média dimensão) se sentam à mesa e não apenas aqueles que habitualmente têm acesso ao poder. Regalado tem o apoio de um Conselho galáctico, que mantenha a transparência e o entusiasmo revelados até aqui e lhe junte ainda mais músculo financeiro.
