menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Intervenção militar no Irão. Vitória decisiva ou atoleiro prolongado

10 0
06.03.2026

A questão de saber se Donald Trump está a cometer um erro ao optar por encetar um conflito de grande envergadura dirigido contra o Irão tem sido o centro de um intenso debate ao longo dos últimos dias. Após o lançamento da Operação “Fúria Épica” na manhã de 01 de março de 2026, as opiniões têm vindo a oscilar entre a eficácia estratégica e os riscos de uma catástrofe regional. Críticos e organizações, como a Union of Concerned Scientists, alertam que a guerra tende a tornar-se caótica, com conflitos a espalharem-se por países como o Bahrein, Líbano e Iraque, aumentando o risco nuclear e a instabilidade económica global. Outros analistas advogam que Trump terá abandonado as suas promessas solenes de uma "America First" e de evitar, a todo o custo, as "guerras eternas" no Médio Oriente, para dar início a uma campanha militar, que o próprio acabou por admitir poder durar bem mais do que as meras 4 a 5 semanas inicialmente previstas.

Especialistas da comunidade das informações (intelligence) e muitos aliados internacionais têm vindo a exprimir algum ceticismo no que respeita à existência de uma ameaça verdadeiramente "iminente" que justificasse, neste momento, um ataque desta magnitude. A administração Trump defende que a ação foi a "última e a melhor oportunidade" para desarticular em definitivo as capacidades nucleares do Irão e, consequentemente, barrar a possibilidade deste país obter armas de destruição em massa.

A preferência pelo emprego de uma estratégia militar de "choque e pavor" tem, seguramente, em vista a obtenção de uma vitória rápida para forçar um novo acordo nuclear ou a mudança de regime, tirando partido da desorientação da liderança iraniana após a morte do Ayatollah Ali Khamenei logo no primeiro ataque. A eliminação do Ayatollah e do seu “estado maior” constituiu fator decisivo na seleção da hora H do lançamento dos primeiros ataques. A reunião de alto nível, aprazada para o início da manhã do dia 01 de março, condicionou claramente o momento do início das operações. Tratava-se de um objetivo de elevado valor estratégico que só poderia ser atacado se a operação não fosse desencadeada antes do momento dessa mesma reunião, observando o fator surpresa, aqui claramente decisivo.

Donald Trump tem vindo a argumentar que o regime iraniano era, no fundo, o "maior patrocinador mundial do terrorismo" e que a sua neutralização trará a desejada estabilidade a longo prazo. Nessa matéria, não há como discordar: a história e os “proxys” Hamas, Hezbollah, Houthis e Jihad Islâmica, que fazem parte de uma aliança denominada “Eixo da Resistência” que o Irão alimenta, assim o demonstram. De momento, os EUA, em conjunto com Israel, mantêm uma ofensiva aérea em larga escala, enquanto o Irão retalia ativamente contra alvos na região do Golfo, registando-se já baixas, (até à data, seis militares norte-americanos) e provocando uma subida considerável nos preços de referência do petróleo e do gás natural.

O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, parece ter desempenhado um papel central e influente na definição da política de Donald Trump para o Irão, atuando tanto como catalisador estratégico quanto como um fornecedor de "provas" de caráter político para justificar decisões disruptivas. Netanyahu foi um dos críticos mais ferozes do acordo nuclear de 2015, JCPOA (Joint Comprehensive Plan of Action), conhecido em português como o Plano de Ação Conjunto Global. Pouco antes de Trump anunciar a retirada dos EUA do referido acordo, Netanyahu fez uma apresentação televisiva detalhada sobre um "arquivo nuclear secreto" que a inteligência israelita (Mossad) teria obtido em Teerão. Defendeu acerrimamente que os documentos provavam que o Irão nunca abandonara a intenção de fabricar armas nucleares, o que forneceu a Donald Trump a base retórica argumentativa para declarar que o acordo era simplesmente baseado numa mera "ficção". Netanyahu mobilizou a oposição republicana, facilitando o apoio político interno para que Trump abandonasse o tratado assinado na era Obama. Ao longo do atual mandato de Trump, Netanyahu tem vindo a conseguir moldar a perceção do presidente dos EUA sobre as oportunidades emergentes de um conflito militar promotor de um verdadeiro ciclo virtuoso resultante de uma reestruturação abrangente de toda a geopolítica regional. A potencial redução e reestruturação política do grande desestabilizador do Médio Oriente, o atual regime iraniano, abriria uma ampla janela de oportunidades. Paz, estabilidade e desenvolvimento económico acelerado. Assim, foi em fevereiro de 2025 que os dois líderes alcançaram um "entendimento completo" sobre uma política para o Irão, vendo-se a si próprios como parceiros na contenção de uma ameaça comum. Netanyahu elogiou publicamente a decisão de Trump de atacar instalações nucleares iranianas –  de Fordow, de Isfahan e de Natanz, em junho de 2025 – asseverando com invulgar desassombro que tais ações "mudariam o curso da história". Muito embora Trump tenha declarado amiudadas vezes preferência por um novo acordo diplomático, Netanyahu manteve-se cético, pressionando por condições muito mais rigorosas do que as do acordo original. Relatórios recentes indicam que ambos trabalharam ombro a ombro numa estratégia que compreendia não apenas o programa nuclear, mas também o próprio enfraquecimento ou mesmo o colapso final do regime em Teerão, encorajando vivamente a população iraniana a tomar nas suas próprias mãos o controlo do seu destino. Em suma, Netanyahu atuou como o principal aliado externo que validou esta postura de "falcão" do presidente norte-americano, fornecendo informações de valor estratégico e apoio político, visando metamorfosear a retórica de campanha numa política de confronto direto.

Esta guerra poderá comportar custos extremamente elevados, tanto imediatos como estruturais, para a economia global e para a segurança internacional como um todo. Conflitos desta natureza, tendo como palco regiões de elevado valor estratégico, como é o caso do Médio Oriente, provocam, invariavelmente, subidas significativas no preço do petróleo, o que se traduz rapidamente em custos de produção industrial mais elevados e uma pressão inflacionista global. Neste caso particular, a segurança da navegação no estrito de Ormuz, através do qual flui cerca de 20% do comércio global das ramas de petróleo e quantidade igualmente significativa de gás natural, é posta em causa, afetando seriamente os fluxos logísticos do comércio internacional e aumentando o custo de bens de consumo. O sinal foi logo dado pelas principais seguradoras internacionais cancelando apólices e reavaliando a cobertura para navios que transitam pelo Golfo Pérsico e pelo Estreito de Ormuz. Estas ações refletem o receio crescente de que o conflito se regionalize e afete diretamente as rotas marítimas estratégicas de energia.

Em locais diretamente afetados pela guerra, o PIB pode cair até 10% e os preços ao consumidor subir cerca de 20% quase instantaneamente. Um grau de incerteza elevado propicia quedas acentuadas nas bolsas e desvalorização de moedas, forçando investidores a procurar ativos de refúgio e retirando liquidez do mercado.

O receio de uma escalada descontrolada está a levar muitos países a aumentar visivelmente os seus orçamentos de defesa. Na União Europeia, o Instrumento de Ação para a Segurança da Europa (SAFE) já desbloqueou cerca de 38 mil milhões de euros em empréstimos para investimento na área militar, sinalizando que a segurança passou a ser uma prioridade financeira estrutural e não apenas de emergência. A guerra na Ucrânia funcionou como a espoleta, e a crescente instabilidade no Médio Oriente a carga propulsora. 

Em suma, mesmo que por hipótese os bombardeamentos e outras ações bélicas tenham um prazo de validade que não ultrapasse um mês, as consequências das sanções económicas e da entropia provocada no regular fluxo das trocas comerciais podem perdurar por anos, afetando o crescimento económico a longo prazo. Devemos estar preparados para as consequências de mais este conflito e pôr em marcha as necessárias medidas mitigadoras.

Sobre o resultado final deste conflito, as dúvidas subsistem: deparar-nos-emos com uma vitória decisiva, ou porventura, com mais um atoleiro prolongado, similar a outros, resultantes de anteriores intervenções dos EUA na região, como foram os conhecidos casos do Iraque ou mesmo do Afeganistão? Para já, diria que esse resultado ainda irá permanecer incerto por mais algum tempo.

Major General//Escreve no SAPO sempre à sexta-feira


© Sapo