Teodoro e os Livros que Morrem em Silêncio
O Professor Teodoro Ramalho gosta de ler Lisboa — e de ler em Lisboa. Um dos seus locais preferidos é o Jardim da Estrela, com as suas sombras longas. Outro é o Príncipe Real, e o imenso carvalho por companhia. Por vezes, a mesa de um café serve-lhe de pouso. O banco de um eléctrico também.
A Biblioteca de São Lázaro, com a sua escadinha em caracol e o relógio vertical império, é um espaço que frequenta com devoção. Subindo do Martim Moniz pela Rua de São Lázaro é um tiro.
Hoje, porém, o Professor decide visitar o Palácio Galveias, ali ao Campo Pequeno. Apetece-lhe sentar-se no pátio interior e saborear um bom livro. Antes de sair, enfia no bolso um pequeno volume das Edições ASA: uma colectânea de crónicas de Eduardo Prado Coelho, escritas para o Público — antes do jornal resvalar para coutada da esquerda bacoca.
À saída da Vila Berta, dá de caras com o Zé Gaspar, o pedinte mais letrado de Lisboa. O cão Tejo aproxima-se, a farejar fumos de charuto entranhados nas calças do Professor.
— Bom dia, Zé Gaspar — cumprimenta Teodoro. — Que me contas hoje? O homem já chegou a Marte?— Não brinque, Professor. Lá chegará........
