Teodoro e os Cafés
O Professor Teodoro Ramalho está determinado. Irá começar uma peregrinação interior pelos cafés de Lisboa. Os americanos têm os diners; (aquele quadro de Edward Hopper, Nighthawks, retratando um diner numa esquina de Nova Iorque, é duma solidão plástica. A luz fluorescente interior contrastando violentamente como a escuridão exterior. As enormes janelas de vidro, um “aquário”, revelando quatro pessoas navegando lá dentro) os franceses têm o bistrô; os austríacos orgulham-se dos cafés de arquitetura imperial; os ingleses vivem nos pubs; os brasileiros têm as padarias multiusos... e os portugueses têm os cafés, versão pastelaria.
Teodoro, por vezes, sente que tal como Borges, “nasceu noutra cidade que também se chamava Lisboa”. Borges dizia que as verdadeiras cidades são sempre as cidades da nossa infância. Por outras palavras, a cidade de hoje será infância na vida das gerações futuras. Por isso Borges afirmava que “os únicos paraísos proibidos ao homem serão os paraísos perdidos”.
O Professor recorda os livros de Marina Tavares Dias que com dedicação obstinada escreveu sobre a “Lisboa desaparecida”. Essa Lisboa será porventura a Lisboa de Teodoro. A sua pátria intemporal porque recordações e obsessões acabam por se misturar na memória do Professor. O lugar onde brincou, onde estudou, onde amou...
Teodoro sai da Vila Berta e põe bengala ao caminho. A madeira rosewood, e o castão derby, dão ao objecto uma certa distinção. Teodoro tem brio na sua bengala. Cruza-se no passeio com Zé Gaspar, o pedinte mais letrado de Lisboa. O cão Tejo cheira o fumo do charuto nas pernas de Teodoro e recebe em troca uma festa na cabeça. A cauda abana em satisfações caninas. Teodoro sorri lembrando uma velha canção: “A diferença entre o homem e o cão é o número de patas na chão”.
Teodoro desce a Calçada do Monte. O declive dá-lhe cabo dos joanetes. O esqueleto agradece a horizontalidade da Rua das Olarias. Do outro lado da Almirante Reis sobe pela Calçada do Desterro para desembocar no Campo Mártires da Pátria. A sombra das frondosas árvores é bem-vinda. Depois, a Rua do Telhal engancha na Rua das Pretas e Teodoro está na Av. da Liberdade. O n.º 1 na esquina com o Elevador da Glória ainda é um edifício nobre. Ali habitou o Café e Salão de Chá Palladium, durante várias décadas. Dizia-se que era “o mais elegante e confortável de Lisboa”. Chegaram a contratar um chef de pastelaria em Paris. O lugar era très chic” – recorda Teodoro.
Num saltinho, deixando um fio de fumo esgueirar-se para cumprimentar as bifanas do Beira-Gare, o Teodoro entrou no Nicola. Bocage, do alto do pedestal, observa tudo. Conta a lenda que sendo interpelado por um guarda: “Quem é? Donde vem e para onde vai” Bocage respondeu oportunamente: “Sou Bocage, venho do café Nicola, e vou para o outro mundo, se dispara a pistola”.
Teodoro pensa como é bom certos cafés terem resistido à erosão do tempo. O vizinho da frente – a Pastelaria Suiça – desapareceu, embora tenha ressuscitado com mortalhas e cheiro a múmias. Teodoro sempre teve afinidades com os cafés de Lisboa. Aí passou alguns dos mais belos momentos de leitura, escrita, encontro, discussão, contemplação, violência de olhares, ternura de mãos.
Teodoro pensa que está na hora de tomar o seu ‘mil folhas’ (bolo adequado a um literato) acompanhado por um ‘galão’ escuro. Teodoro faz planos crepusculares. Mais tarde irá de metro até Entrecampos, e para findar a tarde, fará uma visita à Pastelaria Granfina.
Bebeu o último gole do galão e limpou o bigode metodicamente. Olhou em redor — mesas ocupadas, vozes cruzadas, chávenas tilintando — e por um instante pareceu-lhe que tudo estava no seu lugar. Pura ilusão! Ajeitou o chapéu, afivelou a bengala no braço e saiu para a rua. Lisboa — inteira, ruidosa, indiferente. Cai rápida a noite. Teodoro pensou que talvez Borges tivesse razão: não se perde uma cidade — perde-se a idade em que ela fazia sentido.
Teodoro observa os falcões noturnos na Lisboa de “corpos cansados doutra dança, onde a noite finge ser ainda uma criança”. Cafés rodeados de fumo, cheiros. Velhos de unhas sujas disfarçando a solidão em cervejas que duravam uma hora. Mulheres desencantadas lançando olhares furtivos à lua. Jovens sufocando a tristeza numa bola de Berlim com “muito creme”. “Vai mais uma imperial” – convida o barman. Homens que habitavam vidas alheias devorando ‘bifanas’ encharcadas em mostarda.
Sérgio Godinho, ainda, no ouvido de Teodoro: “Lisboa é mãe solteira. Amou como se fosse a mais indefesa. Princesa. O vento, enfim, parou. Já mal o vejo, por sobre o Tejo. E já tudo pode ser, tudo aquilo que parece, na Lisboa que amanhece”. (ouça aqui)
De repente a rua pareceu-lhe uma frase mal construída. Com verbos e adjetivos desalinhados: Falta vírgula ao mundo – pensa Teodoro.
E, em passo miúdo, foi à procura de um café que já não existe.
