Teodoro e o Pombo de Laputa
O Professor Teodoro Ramalho encontrou o pombo junto ao portão da Universidade Nova, ali na Av. de Berna. Era um veterano das praças lisboetas, com o ar cansado de quem já vira cair governos, modas e estátuas. Faltavam-lhe duas penas na cauda, mancava visivelmente da perna esquerda e tinha um olho baço que parecia ter contemplado demasiadas gerações de estudantes.
O pombo observava a multidão académica com uma serenidade quase episcopal.
Perto dali, um grupo de professores discutia apaixonadamente os paradigmas epistemológicos da desconstrução pós-colonial do discurso urbano. Pelo menos foi o que Teodoro julgou ouvir. Poderiam igualmente estar a debater receitas de arroz-doce. O efeito prático seria semelhante.
Deu lume ao charuto e sentou-se no banco mais próximo. O pombo permaneceu ao seu lado, com a familiaridade dum velho colega de faculdade.
A cena fez-lhe recordar Laputa, a ilha voadora imaginada por Jonathan Swift em As Viagens de Gulliver. Os habitantes daquela extraordinária ilha passavam os dias suspensos entre cálculos matemáticos, especulações........
