Teodoro e o Crime Perfeito
O Professor Teodoro Ramalho deixou a Vila Berta bem cedo. O sol ainda tremia de frio. A neblina era uma poalha húmida sobre Lisboa. Teodoro empunhou a bengala de madeira rosewood, com castão derby. A caminhada prometia ser longa. A bica na Pastelaria Ideal da Graça foi cirúrgica. Apanhou o elétrico até à Praça Luís de Camões. Desceu a Rua do Alecrim e embicou em direção à Praça São Paulo. Nos carris os elétricos vão amarelando ao som do tacão do guarda-freio: dreliiim-dreliiim.
O charuto Montecristo vai deixando uma esteira de fumo enquanto Teodoro espreita lojas com balcões de madeira, armazéns vendendo todo o tipo de ferragens, alfaiates sondando clientes por cima dos óculos... Repentinamente Teodoro adentra à direita um portão de ferro encimado por uma arcada onde se lê: ‘Elevador da Bica’. Teodoro senta-se num dos compartimentos maneirinhos do ‘elevador’. Tabucchi já está acomodado no seu lugar junto à janela. Alisando o bigode minimalista, o italiano apaixonado por Portugal, faz uma leve saudação de cabeça. Teodoro leva dois dedos à aba do chapéu, e ajeita-se quando sente o solavanco inaugural.
— “Sabe, caro Tabucchi,” começou, enquanto se ouve o suspiro metálico da engrenagem, “Baudrillard diria........
