Teodoro e as palavras com arestas
(As palavras em Ary dos Santos tinham alma!)
O Professor Teodoro Ramalho seguia no amarelinho rumo à Graça. Acomodou-se junto à janela, deu lume ao charuto e ficou a ver Lisboa desfilar vagarosamente, como uma velha película de cinema.
Atrás dele, dois adolescentes mantinham uma conversa de notável economia vocabular.
— Mano, foi bué fixe.
O diálogo prolongou-se por três paragens e, apesar da manifesta escassez lexical, os rapazes pareciam compreender-se perfeitamente.
Teodoro soltou uma lenta baforada de fumo. Sempre admirara os grandes milagres da comunicação humana.
Pertencia à geração dos baby boomers. Dizem os sociólogos que esta geração nasceu do otimismo que se seguiu à Segunda Guerra Mundial. A anterior chamara-se geração silenciosa, moldada pelas guerras e pela grande depressão, prudente e pouco dada a estridências.
A seguir vieram as gerações com nomes cirúrgicos: X, Z, Alpha, Beta. Estas últimas são gerações sem palavras. Parecem comunicar apenas por ecrãs. No entendimento do Teodoro, a sua geração, para além de usar calças à boca de sino e enfeitar o cabelo com flores, tinha uma relação saudável com a língua.........
