Teodoro, Camus e a Vá-Vá
O Professor Teodoro Ramalho passou debaixo da arcada da Vila Berta com pontualidade britânica. A bengala, de madeira rosewood, com castão derby, marcava a cadência. O sol ainda repousava nos “braços da aurora” — como diria Diniz Machado. O charuto deixava uma esteira disciplinada de fumo. Lisboa já fervia. No Tejo corriam cacilheiros.
Teodoro subiu a Penha de França, desceu cautelosamente a Calçada do Poço dos Mouros e atalhou diretamente em direção ao Mercado do Chile. Atravessada a Alameda, rumou lestamente para a Mexicana: uma bica e um nata. Teodoro cumprimenta com o chapéu a belíssima Igreja de São João de Deus na Praça de Londres. O seu objetivo era a Rua Flores do Lima, antiga morada do Cinema Quarteto. Era ali que ele deveria estar — cogitou Teodoro. Quando passou pelo FrutAlmeidas, Teodoro teve vontade dum pastelinho de massa tenra, mas resistiu e enfiando por entre os prédios do Bairro das Estacas desembocou na Flores do Lima. O cinema dera lugar a escritórios de coworking. Espaço arejado, filtrado pela luz solar. Cadeiras como cápsulas, cubículos coloridos... Meu saudoso Quarteto! Teodoro lembra-se das estreias de Kilas, o mau da fita e Adeus, Princesa... Mas ele!? Onde estaria!? Foi dar com Camus no deck a céu aberto com vista soberba para os prédios do Bairro de São Miguel. “Salut, mon ami Camus. Ça va?” — saúda Teodoro. O franco-argelino levantou o sobrolho surpreso: “Bonjour Teodoro!”
— Imaginei que estivesses aqui — contemporiza Teodoro — a estreia do filme baseado no teu romance, O Estrangeiro, merecia um Cinema Quarteto engalanado.
— É verdade, Teodoro. Mas sabes, tal como o meu personagem Meursault, vivo numa espécie de exílio interior. Já não participo nas ficções morais da sociedade; observo-as apenas como se fossem rituais estranhos.
Teodoro soltou uma pequena nuvem de fumo e apoiou-se mais na bengala. As ossadas queixavam-se da caminhada.
— Por vezes também sou assim, caro Camus. Atravesso esta cidade como um observador ligeiramente deslocado, fumando o meu charuto, medindo a calçada com a bengala, e examinando o mundo com ironia distante.
— Talvez, Teodoro. Talvez. Mas Meursault vivia num estado de neutralidade quase mineral. Ele não se opunha à sociedade — simplesmente não participava. Practicava um tipo de acédia — uma abulia espiritual quanto às virtudes humanas.
— Sim — aceita Teodoro — colocaste uma certa tibieza no teu Meursault. Ainda para mais aquele cenário da Argélia é quase abstrato: o sol, o calor, o mar. O ambiente parece dissolver as intenções humanas. Macacos me mordam!
Esta é uma observação cheia de sentido porque no universo de Teodoro, a cidade é concreta e viva: ruas inclinadas, elétricos rangendo, cafés com esplanadas que parecem barcas à deriva no mar, miradouros a recortar o Tejo.
— A tua ideia, desenvolvida também em O Mito de Sísifo, de que o homem deve aceitar o absurdo da sua existência, é inovadora. Mas o Meursault chega a essa aceitação pela indiferença. Eu não acho que o mundo seja sem sentido. Apenas perdeu a classe. Descambou no pau de sebo da história.
Camus sorriu diante da metáfora. Afinal era ele o cúmulo da lucidez trágica do absurdo.
— Talvez, meu caro Teodoro. Mas quando o mundo perde sentido, perder a classe é mero detalhe. ‘Est pourtant’ — todavia — o meu Meursault apaixona-se. Marie é sol, é riso, é corpo, é verão... Meursault reage a isso. Ele sorri, fica feliz e sente desejo.
— ‘C’est vrai’ — é verdade, admite Teodoro — mas ele nunca transforma esse desejo em amor metafísico. Ele confessa que não sabe “o que é amor”.
Camus coloca a mão no queixo. As marquises dos prédios do Bairro de São Miguel devolvem-lhe o sol branco de Lisboa. Esse mesmo sol que no seu livro é inclemente, feroz e implacável. Tal como a sociedade que julgou friamente Meursault não pelo crime, mas pela sua incapacidade de participar nos rituais emocionais coletivos.
Teodoro percebe que é hora de petiscar. Sugere um saltinho ao renovado Vá-Vá. Na esquina da Av. de Roma sentam-se cá fora. Teodoro fiel ao charuto e Camus fidelíssimo aos seus Gauloises sem filtro, enchem de fumos a esplanada. Os peixinhos da horta estavam uma delícia.
Teodoro pensou: só falta vírgula ao mundo.Talvez o mundo seja mesmo absurdo.Mas com peixinhos da horta fica mais tragável.
