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Teodoro, a Noite e o Riso

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09.06.2026

O Professor Teodoro Ramalho estava sentado junto à janela.

O chapéu repousava numa cadeira. A bengala encostava-se ao aparador como um velho camarada de campanha. O whisky cintilava no copo. O charuto desfazia-se lentamente num fio azul de fumo que se misturava com a noite de Vila Berta.

Lá fora, Lisboa brilhava.

Do gira-discos improvisado pela modernidade — Teodoro continuava a chamar gira-discos a qualquer aparelho que tocasse música — saía a voz gutural de Tom Waits, resmungando poeticamente contra o universo. Parecia envelhecida em barris de whisky, tabaco e desilusões. Tocava Broken Bicycles. Depois viria This One's from the Heart. Teodoro levou o copo aos lábios. Durante alguns instantes deixou-se ficar a ouvir aquela voz de cascalho molhado e a contemplar a noite.

Foi nesse momento que se lembrou duma frase de Shakespeare. Pela boca de Macbeth, o dramaturgo invocava a vendada noite — come, seeling night — fazendo-nos crer que ela desce de véu negro a tapar os ternos olhos do dia........

© Sapo