Colmatar a lacuna de financiamento: o que as start-ups precisam depois da aceleração
Esta opinião resulta de uma parceria do ECO com a Católica-Lisbon com vista a publicação regular de artigos de opinião sobre empreendedorismo.
Quando Miguel e os seus cofundadores foram aceites numa aceleradora sediada em Lisboa, acreditaram ter encontrado o bilhete certo para o capital de risco. O programa atribuiu-lhes mentores, ajudou a refinar o pitch deck e proporcionou workshops semanais sobre modelos de negócio. No entanto, três meses após o demo day, nenhum investidor manifestou interesse. Entretanto, outra start-up da mesma turma (menos carismática, mas altamente especializada em inteligência artificial) garantiu um investimento seed em poucas semanas. O que fez a diferença? Não foi a apresentação, mas sim a competência técnica da equipa fundadora e a sua capacidade de responder às necessidades do mercado. Os investidores não estavam a comprar ideias, estavam a comprar execução.
Esta história sublinha uma perceção crítica: O que as aceleradoras priorizam nos seus processos de seleção pode não estar alinhado com o que os investidores realmente valorizam na hora de investir. Esta tensão entre perspetivas está no centro das investigações mais recentes sobre o financiamento pós-aceleração.
Colmatar a lacuna entre aceleração e investimento
No mundo dinâmico das start-ups, as aceleradoras tornaram-se atores centrais, oferecendo às empresas, em fase inicial, ferramentas, mentoria e redes de contacto para atrair investidores. Como defendeu Peter Drucker, a inovação não depende da sorte, mas da capacidade de identificar oportunidades de forma sistemática e agir sobre elas com disciplina. Contudo, apesar de serem vistas como pontes entre ideias e capital, a questão mantém-se: preparam realmente as start-ups para o financiamento que procuram? O que leva algumas a conseguirem investimento de capital de risco, enquanto outras, mesmo após seguirem o mesmo percurso, ficam pelo caminho?
Com base numa combinação de entrevistas qualitativas e dados de inquérito, este estudo explora o desfasamento entre as prioridades das aceleradoras e os critérios que efetivamente pesam na decisão de investimento. Compreender esta dinâmica requer mais do que observar histórias de sucesso — implica analisar os pressupostos, os critérios de seleção e os formatos dos programas que moldam a experiência de fundadores e investidores.
O modelo por detrás da aceleração e o que os dados revelam
Para perceber como estas dinâmicas se manifestam na prática, o estudo recorreu a 14 entrevistas aprofundadas com especialistas em venture capital e responsáveis de programas de aceleração, bem como a um inquérito a 42 fundadores de start-ups que participaram em programas de aceleração ou incubação. A amostra dividiu-se de forma equilibrada entre start-ups que obtiveram financiamento pré-seed ou seed (50%) e outras que não conseguiram (50%). Foram ainda analisadas 13 aceleradoras de diferentes setores, revelando a diversidade de modelos existentes. Os resultados mostram um desfasamento subtil, mas significativo entre o que os programas priorizam e o que os investidores realmente procuram.
O tipo e o foco do programa de aceleração funcionaram como variável independente, moldando o desenvolvimento dos fundadores durante o processo. Isso influenciou fatores mediadores, como a perceção de prontidão do fundador, a solidez do pitch de a força da rede de contactos da start-up. A variável dependente foi a obtenção (ou não) de financiamento em capital próprio após o programa. No final, 50% das start-ups conseguiram captar recursos; a outra metade não.
Os dados convergem num ponto-chave: a qualidade da equipa (especialmente soft skills, como compromisso e capacidade de aprendizagem) é o principal critério de entrada nos programas. Alguns responsáveis afirmaram que até 80% do peso da decisão de seleção assenta nessa dimensão. No entanto, quando chega o momento do investimento, os critérios mudam: os investidores priorizam competências técnicas, especialização no setor e o alinhamento entre o fundador e o mercado (founder–market fit). Este desfasamento cria um paradoxo silencioso: há start-ups a serem “aceleradas” não necessariamente por serem financiáveis, mas por demonstrarem carisma e potencial. Os dados também revelam que o encaixe setorial e a reputação da aceleradora influenciam fortemente o interesse dos investidores. Estes demonstram maior predisposição para avaliar start-ups oriundas de programas com histórico comprovado. De facto, 70% dos investidores afirmaram que a reputação da aceleradora desempenhou um papel relevante na sua decisão de investir, sendo o sucesso dos ex-participantes um forte preditor de futuro.
Outra tensão reside no desenho dos programas. Embora as aceleradoras ofereçam apoio em áreas como documentação, networking e preparação de pitch, muitas vezes falham na entrega de mentoria técnica aprofundada e orientação específica ao setor. De facto, 60% dos fundadores indicaram que estas dimensões foram insuficientemente trabalhadas, precisamente os aspetos que os investidores consideram essenciais para viabilizar um investimento.
O estudo identifica três conclusões centrais para os principais atores do ecossistema empreendedor. Para as aceleradoras, o processo de seleção deve ir além do carisma da equipa e avaliar também a profundidade técnica e o conhecimento do mercado. Os programas que combinam apoio ao desenvolvimento de soft skills com capacitação técnica estarão melhor posicionados para formar empresas com reais hipóteses de captar financiamento.
Para os fundadores, a escolha de uma aceleradora não deve assentar apenas na visibilidade ou notoriedade da marca, mas no alinhamento com o estágio e o setor do projeto. Um nome prestigiado ajuda, mas apenas se for acompanhado de valor real na preparação para o mercado. Para os investidores, é fundamental reconhecer que a participação numa aceleradora é apenas parte da equação. É essencial analisar a qualidade do programa e avaliar o grau de preparação da equipa fundadora para o que vem depois do demo day.
Em última análise, este estudo reposiciona o papel das aceleradoras, não como ponto de chegada, mas como pontes estratégicas. Quando os seus critérios e práticas se alinham com os verdadeiros motores do investimento (competências, especialização e coerência estratégica), estas iniciativas não aceleram apenas empresas. Aceleram capital, desbloqueando a próxima vaga de sucesso empreendedor.
