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“Como Zaqueu…” Lagoinha vai devolver o dinheiro que foi roubado?

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26.03.2026

Igreja Batista da Lagoinha é citada em escândalos financeiros envolvendo o Banco Master e o projeto Clava Forte Bank.

Nomes como Daniel Vorcaro, o pastor Fabiano Zettel e André Valadão aparecem em denúncias de uso de recursos ilícitos para expansão religiosa.

A matéria compara o caso ao relato bíblico de Zaqueu, que devolveu quatro vezes mais o dinheiro roubado após encontro com Jesus.

A questão levantada é se a liderança da Lagoinha seguirá o exemplo de Zaqueu e restituirá os valores obtidos de forma indevida.

Há histórias que atravessam os séculos não apenas por sua beleza, mas por sua capacidade de constranger consciências. A narrativa de Zaqueu, registrada no Evangelho de Lucas (Lucas 19.1-10), é uma dessas. Não é apenas o relato de um homem pequeno que sobe numa árvore para ver Jesus passar. É, sobretudo, a história de alguém que, confrontado pela presença do sagrado, decide descer, não só da árvore, mas do pedestal da própria corrupção e reconstruir sua vida a partir da justiça.

Zaqueu era chefe dos publicanos. Em termos simples: era líder dos cobradores de impostos a serviço do império, conhecidos por enriquecer explorando o próprio povo. Sua riqueza não era neutra; era marcada pelo abuso. E é exatamente isso que torna sua conversão tão radical. Ao receber Jesus em sua casa, ele não oferece apenas palavras bonitas, nem uma oração emocionada. Ele oferece reparação concreta: “Se roubei alguém, devolverei quatro vezes mais”. Não há fé autêntica sem restituição. Não há arrependimento verdadeiro sem justiça.

Curiosamente, essa história ganhou nova vida no Brasil através da música gospel popularizada pelo canto gospel Irmão Lázaro (que faleceu em 2021, por consequência da covid-19): “Entra na minha casa, entra na minha vida, mexe com minha estrutura”. A canção, inspirada diretamente no encontro de Zaqueu com Jesus, tornou-se um hino de entrega espiritual. Milhões de vozes a cantaram com fervor, inclusive nas “Igrejas da Lagoinha” pedindo transformação, mudança, intervenção divina. Mas a pergunta que se impõe hoje é incômoda: o que acontece quando a estrutura que precisa ser mexida não é apenas a vida individual, mas instituições inteiras? É aqui que o contraste se torna inevitável.

O recente envolvimento de figuras ligadas à Igreja Batista da Lagoinha em escândalos financeiros, especialmente no caso associado ao Banco Master, levanta questões que não podem ser varridas para debaixo do tapete litúrgico.

Nomes como Daniel Vorcaro e seu cunhado, o pastor Fabiano Zettel aparecem como protagonistas em meio a denúncias graves, incluindo o uso de recursos de origem ilícita, que teriam, inclusive, financiado a expansão de estruturas religiosas. Soma-se a isso o projeto do chamado Clava Forte Bank (a menina dos olhos de André Valadão), tratado por alguns como inovação financeira, mas que, à luz das denúncias, passa a exigir escrutínio rigoroso.

A questão central não é apenas jurídica. É espiritual, ética e, sobretudo, evangélica.

Se uma igreja — qualquer igreja — se beneficia de recursos obtidos de maneira injusta, ela não pode se esconder atrás de discursos de fé, prosperidade ou perseguição. O evangelho não oferece esse tipo de refúgio. Pelo contrário: ele expõe, confronta e exige resposta. A fé cristã não é compatível com enriquecimento baseado na exploração de vulneráveis, especialmente quando se trata de pobres, idosos e aposentados que confiaram seus recursos a sistemas que prometiam segurança.

E aqui voltamos a Zaqueu.

O que tornou sua história memorável não foi o fato de ele ter recebido Jesus em casa, mas o que ele fez depois disso. Ele devolveu o dinheiro que ganhou de forma desonesta. E mais: devolveu em medida ampliada. Sua conversão foi pública, verificável, mensurável. Não foi apenas um testemunho; foi uma prática.

Diante disso, a pergunta do título deixa de ser retórica e se torna um chamado direto: a Lagoinha — e todos os envolvidos — estão dispostos a fazer como Zaqueu?

Estão dispostos a reconhecer publicamente os erros? A abrir suas contas, suas relações, seus projetos financeiros? A devolver cada centavo que tenha sido obtido de forma indevida, especialmente se esse dinheiro veio de pessoas simples, aposentados, trabalhadores que confiaram não apenas em uma instituição, mas em um discurso espiritual? Porque, sem isso, qualquer discurso de arrependimento será vazio.

Não basta cantar “entra na minha vida” se não se permite que essa entrada provoque mudanças reais. Não basta pregar sobre transformação se, na prática, estruturas de poder e dinheiro permanecem intocadas. O evangelho não é um enfeite moral para instituições; é uma força que desestabiliza, corrige e reconstrói.

É preciso dizer com clareza: quando a igreja se envolve com dinheiro sujo, ela trai não apenas seus fiéis, mas o próprio Cristo que diz seguir. E quando líderes religiosos se associam a esquemas financeiros obscuros, o dano não é apenas econômico, é espiritual, coletivo, profundo. A fé de muitos é abalada. A confiança é destruída. E o nome do evangelho é usado como instrumento de descrédito.

Mas ainda há caminho.

Se a Lagoinha quiser realmente honrar o evangelho que diz pregar, terá que ir além das notas oficiais e dos cultos emocionados. Terá que fazer o que Zaqueu fez: devolver. Restituir. Reparar. Publicamente.

Isso inclui, necessariamente, uma investigação transparente sobre todas as relações financeiras envolvidas, a devolução integral de recursos obtidos de forma ilícita e a criação de mecanismos que impeçam que algo semelhante volte a acontecer. Mais do que isso: exige uma mudança de mentalidade, uma revisão profunda da relação entre fé e dinheiro.

Porque o evangelho não é um negócio.

E talvez esse seja o ponto mais difícil de encarar. Durante anos, parte do movimento evangélico brasileiro flertou perigosamente com uma lógica empresarial, onde crescimento, expansão e arrecadação passaram a ser vistos como sinais inequívocos de bênção divina. Nesse contexto, projetos financeiros sofisticados, bancos próprios e estruturas empresariais complexas passaram a ser não apenas tolerados, mas celebrados.

Mas o caso em questão mostra o risco dessa lógica. Quando a fé se mistura com interesses financeiros sem transparência e ética, o resultado não é prosperidade. É escândalo. E o preço é pago, quase sempre, pelos mais vulneráveis. Zaqueu entendeu isso em um único encontro. Ele percebeu que não era possível seguir Jesus e continuar explorando pessoas. Ele escolheu mudar.

A pergunta que permanece é simples, mas decisiva: quem hoje terá a mesma coragem?

Se a resposta for “sim”, haverá dor, perdas e exposição — mas também haverá redenção. Se for “não”, restará apenas a contradição entre o que se canta e o que se vive. E, nesse caso, a música continuará ecoando — não mais como oração, mas como denúncia:

“Entra na minha casa, entra na minha vida, mexe com minha estrutura.”

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum


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