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A obsolescência do humano, por Washington Araujo

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26.08.2025

Ao longo dos anos, me aproximei do pensamento de Günther Anders através de traduções não oficiais em inglês, trabalhos de estudiosos apaixonados que se dedicaram a tornar acessível a obra do filósofo alemão fora do universo restrito da língua germânica. Li Anders em cópias digitais mal diagramadas, muitas vezes com frases tortuosas, mas o desconforto da leitura era compensado pela revelação das ideias. E agora, com a previsão para dezembro de 2025 da primeira tradução integral em inglês de A obsolescência do humano, esse reduto de esquecimento poderá ser revertido.

Não se trata de modismo editorial, mas de um aporte vigoroso: Anders retorna ao centro do debate global sobre tecnologia, democracia e destino humano. Confrontá-lo neste tempo, atravessado por algoritmos e crises ecológicas, é imperativo. Seu pensamento pode ser fio condutor para resgatar o humano como promessa e responsabilidade, não apenas como engrenagem descartável.

O coração da reflexão de Anders está naquilo que chamou de “fenda prometéica”: o abismo entre o que podemos produzir e o que conseguimos imaginar. Somos capazes de lançar bombas nucleares, mas incapazes de prever, no íntimo, a dimensão do horror que se segue. Inventamos tecnologias capazes de moldar o clima, manipular emoções e gerar conteúdos infinitos, mas não possuímos imagens mentais adequadas para abarcar as consequências disso tudo. É como se tivéssemos em mãos um foguete interplanetário e, ao mesmo tempo, mapas de navegação ainda medievais. A consequência é devastadora: fabricamos futuros que a mente humana não alcança, e esse atraso da imaginação moral se converte em permissividade perigosa.

Desse hiato nasce o que Anders nomeou de “vergonha prometéica”: a sensação de sermos ultrapassados pela perfeição das coisas que criamos. Frente à exatidão de um algoritmo, à velocidade de um robô, ao brilho de uma máquina que não erra, sentimos vergonha de nosso corpo frágil, de nossas falhas, da lentidão com que pensamos ou nos recuperamos.

Essa vergonha não é apenas psicológica; ela se converte em comportamento coletivo. Passamos a valorizar-nos não pelo que somos, mas pelo quanto nos aproximamos da lógica das máquinas. Um trabalhador compara-se a um software; um estudante mede-se contra a capacidade de busca de uma plataforma. É como se........

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