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A machocracia do dinheiro: Banco Master, Daniel Vorcaro e a estrutura que sustenta o poder masculino no Brasil

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O escândalo do Banco Master, de Daniel Vorcaro, expõe relações promíscuas entre mercado, política e mídia no Brasil.

A análise revela uma "machocracia" brasileira: sistema de poder que se retroalimenta entre homens e garante permanência no topo.

O poder no país permanece masculino, branco, concentrado e blindado, segundo o texto.

Após o escândalo, chamou mais atenção a ridicularização de mulheres por Vorcaro do que o rombo econômico produzido.

O escândalo do Banco Master não revela apenas cifras, contratos e relações promíscuas entre mercado, política e mídia. Ele expõe algo mais profundo, estrutural e perigoso: a engrenagem silenciosa da machocracia brasileira.

Não se trata apenas de corrupção ou lobby. Trata-se de um sistema de poder que se retroalimenta entre homens, que se protege entre homens e que, no final, cobra a conta das mulheres.

A lista de beneficiados, articuladores e influenciadores orbitando o império financeiro de Daniel Vorcaro não é apenas um dado jornalístico. Ela é um retrato fiel de como o poder no Brasil ainda é masculino, branco, concentrado e blindado.

Homens financiam homens. Homens legitimam homens. Homens constroem redes que garantem a permanência de outros homens no topo. Quando esse sistema entra em crise, ele não colapsa sozinho. Ele se rearranja, se protege e se recicla. Mas nunca se responsabiliza.

Depois que o escândalo veio à tona, chamou mais atenção a forma como Vorcaro ridicularizava mulheres do que o próprio rombo econômico que ajudou a produzir. Como se a misoginia fosse apenas um detalhe curioso, quase folclórico, enquanto a engrenagem financeira que movimentou milhões permanecesse em segundo plano. Talvez porque seja mais fácil reproduzir e compartilhar o desprezo contra mulheres, algo que já encontra terreno fértil na cultura, do que encarar a complexidade e a gravidade do que pode ser uma das maiores fraudes bancárias do país. No fim, a misoginia viraliza e o sistema que a sustenta segue protegido.

A isso damos pouco nome, mas ele existe e tem forma: machocracia.

A machocracia não é apenas a presença de homens no poder. É a lógica de funcionamento desse poder. É a naturalização de que decisões econômicas bilionárias sejam tomadas em circuitos fechados, sem diversidade, sem controle social real e sem qualquer compromisso com as consequências sociais dessas escolhas.

É nesse ambiente que o dinheiro circula como ferramenta de influência e não como instrumento de desenvolvimento. É nesse ambiente que o lobby deixa de ser exceção e passa a ser método. É nesse ambiente que o Estado é tensionado, pressionado e muitas vezes capturado.

E quem paga essa conta são as mulheres.

Pagam quando políticas públicas são capturadas por interesses financeiros que ignoram desigualdades de gênero. Pagam quando o crédito vira armadilha, especialmente no modelo do consignado, que atinge mulheres mais vulneráveis, muitas vezes chefes de família e responsáveis pelo sustento de filhos e idosos. Pagam quando o colapso financeiro se traduz em desemprego, precarização e sobrecarga do trabalho de cuidado, que continua sendo majoritariamente feminino. Pagam quando o dinheiro compra silêncio, influência e narrativa enquanto a violência estrutural segue invisibilizada.

Não há separação real entre economia e violência de gênero. O que existe é uma continuidade.

A mesma lógica que permite que homens concentrem poder econômico sustenta a ideia de que homens têm direito sobre corpos, decisões e destinos de mulheres. É a mesma raiz.

A ideia de superioridade masculina não nasce apenas na cultura. Ela é financiada, estruturada e protegida por sistemas que garantem que homens continuem mandando mesmo quando erram, mesmo quando quebram e mesmo quando produzem danos sociais gigantescos.

E talvez o dado mais perverso seja esse. Homens não precisam ser melhores para permanecer no poder. Eles só precisam estar dentro da rede.

Enquanto isso, mulheres precisam provar, reiteradamente, competência, excelência e legitimidade e ainda assim permanecem fora dos espaços onde as decisões mais importantes são tomadas.

O caso do Banco Master não é um desvio. Ele é um sintoma de um país onde o poder continua circulando em torno dos mesmos nomes, dos mesmos perfis e das mesmas estruturas. É um sintoma de uma democracia que ainda não rompeu com seus próprios filtros de acesso. É também um sintoma de uma sociedade que ainda não entendeu que desigualdade de gênero não é apenas um problema social, mas um problema econômico, institucional e profundamente político.

Se o dinheiro compra influência e a influência mantém homens no poder, então o combate à desigualdade de gênero passa necessariamente por desmontar essas redes.

Não basta falar de representatividade. É preciso falar de ruptura.

Ruptura com a lógica de proteção entre pares. Ruptura com a naturalização da ausência de mulheres nos espaços de decisão econômica. Ruptura com a ideia de que crises financeiras são neutras, quando na prática aprofundam desigualdades.

Porque não são neutras.

Enquanto a machocracia continuar operando nos bastidores do poder, o resultado será sempre o mesmo. Homens protegidos no topo e mulheres pagando a conta embaixo.

O problema não é apenas quem aparece na lista.

O problema é quem nunca entra nela.

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