menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Trump diante do espelho persa: os limites do poder americano

15 0
04.03.2026

A escalada entre EUA, Israel e Irã revela limites da capacidade americana de converter supremacia militar em controle político em sistema internacional fragmentado.

Desde que os EUA abandonaram o acordo nuclear iraniano em 2018, a política de sanções não provocou colapso institucional; Irã expandiu capacidades nucleares e adotou guerra híbrida.

A estratégia iraniana combina aliados regionais, drones, mísseis e risco energético, usando que cerca de 20% do petróleo mundial passa pelo Estreito de Ormuz.

Especialistas apontam que Trump subestimou a resiliência iraniana, o sistema internacional multipolar e o custo doméstico de conflitos prolongados para os EUA.

Certos conflitos decorrem de equívocos táticos; outros expõem deslocamentos estruturais no sistema internacional. A atual escalada entre Estados Unidos, Israel e Irã pertence a esta segunda categoria. O que se apresentou como demonstração de força destinada a restaurar a dissuasão tornou-se um teste da capacidade americana de converter supremacia militar em controle político num cenário global que já não reage de forma automática à sua liderança.

Desde a retirada unilateral dos Estados Unidos do acordo nuclear firmado em 2015 — o Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA) — decisão tomada pela administração Trump em 2018, a política de “máxima pressão” impôs ao Irã o regime de sanções mais severo da história recente. Segundo dados do Departamento do Tesouro dos EUA, milhares de indivíduos e entidades iranianas foram alvo de restrições financeiras. Ainda assim, o resultado não foi colapso institucional.

Pelo contrário. Relatórios da Agência Internacional de Energia Atômica indicaram expansão gradual das capacidades nucleares iranianas após o abandono do acordo. A pressão produziu adaptação estratégica, não capitulação.

Trump partiu de uma premissa clássica: ação rápida, demonstração tecnológica, choque psicológico e reposicionamento do adversário. A fórmula funcionou em contextos assimétricos anteriores. Mas o Irã não é um ator isolado nem opera sob lógica de rendição imediata.

Teerã respondeu dentro de sua doutrina de guerra híbrida e dissuasão escalonada. A estratégia iraniana combina projeção indireta por meio de aliados regionais, capacidade de saturação por drones e mísseis e manipulação do risco energético. Aproximadamente 20% do petróleo comercializado globalmente transita pelo Estreito de Ormuz. Qualquer instabilidade ali impacta imediatamente mercados globais, como demonstram oscilações recentes nos preços do Brent após episódios de tensão naval.

Em conflitos assimétricos, vencer não significa destruir o oponente. Significa sobreviver, impor custos e alongar o tempo estratégico. O Irã compreende isso com clareza.

Trump subestimou três variáveis centrais. A primeira é a resiliência estrutural iraniana. Quatro décadas de sanções não desmantelaram o regime. Ao contrário, consolidaram mecanismos paralelos de comércio, aprofundaram relações energéticas com a China e ampliaram canais financeiros alternativos fora do sistema dominado pelo dólar.

A segunda variável é sistêmica. O mundo de 2026 é substancialmente distinto do ambiente unipolar pós-2003. Rússia e China não precisam intervir militarmente para alterar equilíbrios. A coordenação diplomática no Conselho de Segurança da ONU, acordos energéticos bilaterais e iniciativas como sistemas de pagamento alternativos ao SWIFT reduzem a eficácia coercitiva tradicional americana. A erosão é incremental, mas cumulativa.

A terceira variável é doméstica. Conflitos prolongados historicamente afetam ciclos eleitorais americanos. Dados do Congressional Research Service mostram que operações militares extensas tendem a gerar pressões orçamentárias e desgaste político, sobretudo quando objetivos estratégicos permanecem ambíguos. A política externa não está imune à dinâmica interna.

O paradoxo atual é evidente: os Estados Unidos mantêm orçamento de defesa superior ao das dez nações seguintes combinadas, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), um dos principais centros globais de monitoramento de gastos militares. Ainda assim, enfrentam dificuldade crescente em traduzir superioridade bélica em estabilidade política duradoura. A dissuasão clássica pressupõe que o adversário não suportará os custos. O Irã sinaliza disposição para absorvê-los.

Israel opera sob lógica existencial distinta. Para Jerusalém, conter a expansão estratégica iraniana é imperativo imediato. Para Washington, o cálculo envolve implicações globais: mercados energéticos, alianças atlânticas, posicionamento no Indo-Pacífico e competição estratégica com Pequim. A convergência tática não elimina divergências estruturais de risco.

O elemento mais preocupante é a fragilidade diplomática. Não há arquitetura robusta de negociação paralela comparável ao processo que levou ao JCPOA em 2015. A ausência de canal institucionalizado aumenta o risco de erro de cálculo.

O que está em jogo transcende o Oriente Médio. Trata-se da natureza da liderança americana em uma ordem internacional fragmentada. Desde o fim da Guerra Fria, Washington operou sob a suposição de que poderia intervir, reconfigurar e retirar-se mantendo influência decisiva. Hoje, sair tornou-se mais complexo do que entrar.

O conflito com o Irã revela limite estrutural: poder militar absoluto não equivale a controle político absoluto. Hegemonia contemporânea depende de legitimidade, coalizões e previsibilidade sistêmica. Quando a previsibilidade se deteriora, o custo da liderança aumenta exponencialmente.

Trump acreditou que projetaria força controlada. Enfrenta uma dinâmica que escapa ao controle linear. O Irã não precisa derrotar militarmente os Estados Unidos para alterar o equilíbrio. Precisa apenas estender o conflito, elevar seus custos e regionalizar seus efeitos.

Se a escalada evoluir para um ciclo duradouro de desgaste, poderá simbolizar algo mais amplo: a transição de uma hegemonia incontestada para um cenário de competição sistêmica permanente. Não se trata do colapso do poder americano, mas da metamorfose de sua natureza.

O espelho persa devolve à Casa Branca uma verdade que Washington reluta em admitir: a superioridade militar permanece, mas a capacidade de determinar os desfechos já não lhe pertence integralmente. A distância entre poder e controle tornou-se visível.

O que está em curso pode ultrapassar os limites de um confronto regional. Pode assinalar o instante em que a hegemonia americana deixou de operar como garantia automática de resultados e passou a enfrentar as fricções de um sistema internacional em redistribuição.

Os Estados Unidos continuam fortes. O que já não é absoluto é sua margem de decisão sobre o rumo dos acontecimentos.

*Marcelo Copelli é jornalista correspondente na Europa, editor de Política e pesquisador na área de Comunicação.


© Revista Fórum