“Rivalidade Ardente”: série retrata como homofobia e armário estruturam o esporte
Série canadense "Rivalidade Ardente" (Heated Rivalry), disponível na HBO Max, retrata o relacionamento secreto entre dois jogadores de hóquei rivais, Ilya e Shane.
A trama aborda a homofobia no esporte e o impacto do "armário" na vida amorosa dos atletas, incluindo a lei anti-LGBT na Rússia, afetando o personagem Ilya.
A série explora as consequências psicológicas e sociais da repressão, como ataques de pânico e alcoolismo, enfrentadas por atletas LGBT que não podem se assumir publicamente.
Muito já foi dito sobre a série “Rivalidade Ardente” (Heated Rivalry), principalmente no que diz respeito às cenas de sexo entre Ilya Grigoryevich (Connor Storrie) e Shane Hollander (Hudson Williams), duas estrelas do hóquei no gelo que são rivais no rinque, mas amantes nos bastidores e em sigilo absoluto.
A série é uma produção canadense da Crave, que agora está disponível no streaming da HBO Max. E tamanho é o sucesso de “Rivalidade Ardente” que já se tornou uma das maiores audiências da plataforma. Para se ter uma ideia, até o fim de 2025, a produção já acumulava mais de 11,5 milhões de espectadores nos EUA e, segundo a Warner, tem tudo para se tornar a produção mais assistida da HBO Max.
Para além do sexo e dos corpos atléticos
Bom, mas se você ainda não tomou contato com a série “Rivalidade Ardente”, a trama gira em torno de Ilya e Shane, dois jogadores de hóquei no gelo que são rivais no rinque, mas se amam nos bastidores. Além disso, ambos são as principais estrelas do esporte em questão.
A trama tem como ponto de partida o ano de 2011, quando Ilya e Shane estão em rápida ascensão. E é também em 2011 que eles se conhecem e começam a se relacionar.
Homofobia e armário no mundo dos esportes
Sim, “Rivalidade Ardente” possui muitas cenas de sexo entre os protagonistas, mas elas cumprem uma função política na trama, visto que eles não podem se assumir por medo da reação dos patrocinadores e torcedores, e também pelo fato de passarem longos períodos sem se ver ou ter alguma oportunidade de estarem a sós. Esses momentos de distância às vezes se arrastam por meses.
Mas há aqui um outro caráter que considero o principal da história: a maneira como a homofobia e o armário empurram Ilya e Shane para uma vida amorosa completamente disfuncional — e isso não por desejo deles, mas por conta de uma estrutura do mundo dos esportes completamente intolerante com atletas LGBT.
Outro ponto alto da narrativa de “Rivalidade Ardente” é o fato de Ilya ser russo. Quando ele conhece Shane, a Rússia ainda permitia manifestações públicas da vida LGBT, existiam Paradas do Orgulho. No entanto, a história atravessa o ano de 2013, quando o país governado por Vladimir Putin aprova a infame lei “anti-propaganda LGBT”, que criminaliza as vidas queer.
O ano é 2017. Shane e Ilya arrastam a relação há seis anos e entram em uma crise provocada pela vida no armário. Nesse momento, há um diálogo emblemático entre os dois atletas, quando Ilya deixa claro para Shane que, caso ele se assuma, não poderá voltar para o seu país.
Sem resvalar para um roteiro panfletário, o texto de Jacob Tierney (uma adaptação do livro de Rachel Reid), que também assina a direção, trabalha de maneira sutil, ao longo dos episódios, como a homofobia e o armário empurram Ilya e Shane para uma vida amorosa completamente disfuncional e que, em determinado momento, começa a perturbá-los.
E, para criar um contraponto ao amor disfuncional e escondido de Ilya e Shane, a trama traz outro jogador que vive no armário: Scott Hunter (François Arnaud), que não aguenta viver a sua relação escondida e, no final de um campeonato, após erguer a taça que seu time conquistou, chama o companheiro, Kip (Robbie Graham-Kuntz), para o rinque e o beija na frente de todos, com direito à transmissão em cadeia nacional.
Existe lugar para atletas LGBT no mundo dos esportes?
Como dito na abertura deste texto, o sexo tão comentado tem uma função totalmente política em “Rivalidade Ardente”, pois escancara que atletas LGBT, mesmo em países com direitos civis avançados, são empurrados para a escuridão do armário; caso contrário, podem ter a ruína como destino.
Não é à toa que Shane tem ataques de pânico e que Ilya, sempre que confrontado com a realidade de seu país, escamba para exageros alcoólicos. Tais comportamentos são produções da homofobia, pois os dois atletas, que são jovens, ricos e admirados, não podem viver livremente.
A trama retratada em “Rivalidade Ardente” está presente em todas as esferas do mundo dos esportes. No Brasil, onde o futebol é hegemônico, torcidas e clubes avançaram no que diz respeito ao combate à homofobia, mas até hoje nenhum jogador de futebol, no auge de sua carreira, teve coragem de sair do armário. Como se vê, o sofrimento de Ilya e Shane é mais comum do que parece e, pelo visto, está longe de terminar.
