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Jornalismo sob medida: Folha diz que Master “atinge tanto direita quanto esquerda”

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10.03.2026

Folha de S.Paulo publicou lista de 16 nomes no escândalo do Banco Master tentando equilibrar culpa entre esquerda e direita.

•-críticos apontam que, do lado "esquerdo" citado (Lula, Mantega, Lewandowski, Jaques Wagner, Rui Costa), não há provas de ilegalidade.

Já do lado direito, há suspeitas concretas: Ciro Nogueira (autor da "Emenda Master"), Antônio Rueda, Davi Alcolumbre, Ibaneis Rocha, Cláudio Castro e políticos bolsonaristas.

Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, teve 24 visitas registradas de Vorcaro durante sua gestão, sob suspeita de "vista grossa" à fiscalização.

O cinismo da imprensa corporativa brasileira, quando decide blindar seus escolhidos ou acolhidos por afinidade, não conhece limites. A última peça de ficção fantasiada de reportagem “isenta” vem da Folha de S.Paulo. Num esforço arrebatador de malabarismo retórico, o jornalão paulistano tenta emplacar a narrativa de que o escândalo do Banco Master é um buraco negro que tragou, em igual medida, a direita e a esquerda. É o puro suco do jornalismo sob medida: a criação de uma falsa simetria para diluir a lama que, na vida real, escorre exclusivamente pelos gabinetes do bolsonarismo e do centrão fisiológico. A chamada é gerar gritos de revolta: “Relação de Vorcaro com políticos arrasta nomes de direita e esquerda para escândalo do Banco Master”.

A manobra é transparente. Diante da popularização do termo “BolsoMaster”, que sintetiza com precisão o ecossistema de favorecimentos e relações promíscuas, e muitas criminosas, entre a instituição de Daniel Vorcaro e o governo anterior, a Folha correu para construir um “puxadinho” de esquerda no arranha-céu do escândalo. A intenção é clara: se “todo mundo é culpado”, ninguém é vilão, e a extrema direita ganha o salvo-conduto para usar livremente o clichê “mas e o Lula, e o PT?”.

Para sustentar essa mentira convertida em jornalismo profissional, a Folha pariu uma lista bizarra de 16 nomes “envolvidos no caso”. Desses, o jornal pinçou cinco para tentar colar na esquerda algum nível de culpa, forçando infantilmente a tal equivalência. Mas basta um sopro de honestidade intelectual para ver que o castelo de cartas desmorona.

Vejamos o “lado esquerdo” da lista da Folha: Guido Mantega, Ricardo Lewandowski, Lula, Jaques Wagner e Rui Costa.

A começar por Guido Mantega e Ricardo Lewandowski. Chamá-los de “esquerda” para fins de escândalo é um atestado de ignorância ou de pura má-fé. Mantega, economista sênior sempre orbitando o “mercado”, apenas teve seus serviços de consultoria oferecidos ao Master, algo comum em sua trajetória profissional, sem qualquer relação com as vísceras do esquema ilegal. Já Lewandowski, atual ministro da Justiça, é um jurista de carreira que presidiu o STF e que esteve inclusive na presidência da Corte durante o farsesco impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em 2016, seguindo rigorosamente os ritos que derrubaram a petista, sem apontar qualquer anormalidade naquele episódio histórico vergonhoso. Seu “crime”? Ter tido um contrato lícito entre seu escritório de advocacia e o banco muito antes de qualquer suspeita vir à tona. É o exercício da advocacia transformado em “crime de proximidade” pela caneta seletiva da Folha.

Quanto a Lula, a acusação beira o puerismo. O presidente recebeu Daniel Vorcaro no Palácio do Planalto, como faz com qualquer empresário ou investidor de peso, cercado de assessores e ministros, aos olhos de todos. Tratar uma audiência institucional do presidente da República como “envolvimento em escândalo” é o grau máximo de leviandade. Já o senador Jaques Wagner (PT-BA) e ministro da Casa Civil Rui Costa aparecem na lista por “suposta amizade” com figuras do Master e de outras instituições satélites. Nenhuma prova ou indício de ilegalidade, nenhum ato de ofício, nenhuma transação suspeita. Apenas a tentativa desesperada de sujar o figurino do governo com o barro de um escândalo que não lhes pertence.

Agora, olhemos para onde o dinheiro e o tráfico de influência realmente moram. Do outro lado da lista, os 11 nomes da direita e do bolsonarismo não estão ali por “cortesia” ou “amizade”, mas por suspeitas reais e pesadas de irregularidades e crimes que formam o verdadeiro cerne do caso Master.

Diferente da “esquerda” inventada pela Folha, aqui o buraco é mais embaixo. Estamos falando da utilização do aparato estatal para favorecer negócios, de liberações suspeitas no Banco Central durante a gestão bolsonarista, de encontros às escondidas para tratar de interesses diretos do banco e de uma rede de influência. Aqui, não se trata de “conversa de consultório”, mas de suspeitas reais de corrupção, lavagem de dinheiro e uso da máquina pública em benefício de um grupo financeiro que se tornou o braço econômico da extrema direita.

Antônio Rueda, presidente do União Brasil, e Ciro Nogueira, presidente do PP, aparecem como os grandes anfitriões políticos do banco. Rueda é citado por aceitar caronas no helicóptero de Vorcaro, mas o caso de Ciro é muito mais grave: ele é o “grande amigo de vida” do banqueiro e autor da famigerada “Emenda Master”, uma manobra legislativa que tentou aumentar a garantia do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF, o que salvaria o couro da instituição em caso de quebra. É o uso direto do Congresso para fabricar um colete à prova de balas para um banco suspeito.

Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado, e Ibaneis Rocha (MDB-DF), governador do Distrito Federal, completam o núcleo de influência regional e institucional. Alcolumbre é suspeito de ter apadrinhado investimentos temerários de quase R$ 400 milhões da Amprev (Previdência do Amapá) no Master, realizados em tempo recorde sob gestão de seu ex-tesoureiro. Já Ibaneis Rocha está no centro do escandaloso plano de “salvamento” do Master pelo BRB (Banco de Brasília), uma operação de R$ 12 bilhões em carteiras de crédito podres que quase quebrou o banco público da capital da República.

A conexão Rio e a extrema direita

No Rio de Janeiro, o governador Cláudio Castro (PL) é investigado pela Operação Barco de Papel, que apura o uso do dinheiro dos aposentados fluminenses (Rioprevidência) para alimentar o caixa do Master. No plano ideológico e de financiamento eleitoral, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), aparecem beneficiados pelo “dinheiro da família Master”: o pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, sócio e seu principal operador, foi o maior doador individual das campanhas de ambos em 2022, injetando R$ 5 milhões na dupla extremista, sendo R$ 2 milhões para Tarcísio e R$ 3 milhões para Bolsonaro.

Já os deputados federais Nikolas Ferreira (PL-MG) e João Carlos Bacelar (PL-BA), além do prefeito de Maceió, João Henrique Caldas (PL-AL), representariam o braço de apoio logístico e de imagem de Vorcaro. Nikolas, além de estar na agenda de contatos íntimos do banqueiro, utilizou jatinhos dele durante sua campanha eleitoral. JHC e Bacelar, por outro lado, são citados por proximidade e por supostas articulações na Câmara para barrar investigações ou facilitar o trânsito de interesses do grupo Master junto ao governo federal.

O “cão de guarda” no Banco Central

Por fim, o papel de Roberto Campos Neto é o que mais causa indignação. Sob sua gestão no Banco Central, Vorcaro teve trânsito livre, com mais de 24 visitas registradas. A suspeita é de “vista grossa” deliberada. Enquanto o Master inflava seu patrimônio com títulos falsos e operações fraudulentas, a fiscalização do BC, comandada por nomes indicados na era Campos Neto (como os agora investigados Paulo Sérgio Neves e Bellini Santana), teria prestado uma “consultoria informal” para o banco, ensinando-os a driblar as próprias normas da autoridade monetária.

Diante dessa nada equivalente lista, é impossível não chegar à conclusão de que o que a Folha faz é um desserviço à democracia. Ao tentar “equilibrar” o jogo por meio de mentiras deslavadas, ela protege os criminosos de verdade sob o manto da dúvida generalizada.

O escândalo do Master tem cor, tem partido e tem um nome que a grande imprensa tenta desesperadamente apagar: BolsoMaster. O resto é contorcionismo de quem trocou o compromisso com a verdade pela militância corporativa em favor do status quo direitista. O jornalismo de “verniz profissional” da Folha nada mais é do que cinismo em estado bruto. E bem descascado, por óbvio.


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